Na era digital, você está numa bolha: estoure-a; a cauda é longa: explore-a

Ouço todo mundo falando o tempo todo coisas como “De onde saiu essa gente louca/sem noção/desprezível/admirável”?, “Como é que tem gente que gosta/odeia tanto isto ou aquilo?” e por aí vai.

Acredito num lance que é o seguinte: existe gente para gostar de tudo o que há. E para odiar tudo o que há, também. A diferença é que, nesta era digital, a internet possibilitou que todos os grupos, sejam os que amam ou os que odeiam qualquer coisa que você imagine, se organizassem e se fortalecessem.

A internet deu espaço e visibilidade aos nichos, às pessoas com as mais diversas preferências, conectando-as, unindo-as. Clay Shirky escreveu “Here Comes Everybody – How Change Happens When People Come Together” para mostrar o poder que as pessoas têm, juntas, quando conectadas à grande rede. Chris Anderson escreveu “The Long Tail”, que mostrou como a receita dos produtos de nicho, com baixo volume de vendas isoladamente, pode ser igual ao lucro que os campeões de venda dão – pois existem fãs para tudo, tudo mesmo, e eles, juntos, deixam de ser insignificantes ou raros.

Apesar do enfoque no marketing, o livro da “cauda longa” trata de um fenômeno que, potencializado pela internet, vai muito além: com a Web, todos, sem exceção, podem mostrar suas preferências, defender suas ideias, estampar suas convicções nas redes sociais, arrebanhando seguidores, adoradores, viewers, fãs, haters, whatever. Essa é a tal da “cauda longa”. Com ela, não há mais indivíduos isolados, com suas ideias maravilhosas ou maluquices demolidoras; há grupos fortes com ferramentas à sua disposição, para se tornarem mais fortes ainda – para o “bem” ou para o “mal”.

Além disso, a internet e seus colegas mais novos, os algoritmos, criam bolhas em torno de nós. Nessa cauda longa, muito longa, habitamos bolhas dentro de outras bolhas, isolando-nos de outras bolhas, que pouco conhecemos. Isso nos faz sentir que o mundo é essa bolha, quando ele na verdade está longe de sê-la; a bolha é apenas uma fatia da realidade, que tende a ficar cada vez mais restrita.

Temos que desafiar a bolha, ou as bolhas, a cada momento. Temos que furar as bolhas, se quisermos expandir nossos horizontes. Ou seja, há muitas possibilidades para nós, muitas ferramentas à nossa disposição, mas o que define o presente, e o futuro, é o uso que fazemos delas, a nossa capacidade crítica, a nossa educação – no sentido mais amplo da palavra, a nossa conexão com o que é real e verdadeiro, com pessoas – fora da rede, com nós mesmos, com as pesquisas que estão sendo feitas, com os resultados que são descobertos, com os movimentos que observamos, com o que importa.

Há espaço para tudo, para todos; precisamos usar isso a nosso favor. O “mal”, seja ele quem for, costuma se organizar muito bem, e se espalha rapidamente. Mas as mesmas ferramentas estão também à disposição do “bem” – seja ele o que for, e em quais bolhas e nichos estiver.

Imagem: Aaron Burden @ Unsplash

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