{"id":2743,"date":"2023-10-04T02:56:34","date_gmt":"2023-10-04T02:56:34","guid":{"rendered":"http:\/\/camilaleporace.com.br\/?page_id=2743"},"modified":"2023-10-05T14:36:15","modified_gmt":"2023-10-05T14:36:15","slug":"o-que-a-minha-pesquisa-sobre-ia-tem-de-diferente","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/camilaleporace.com.br\/index.php\/o-que-a-minha-pesquisa-sobre-ia-tem-de-diferente\/","title":{"rendered":"O que a minha pesquisa sobre IA tem de diferente?"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/camilaleporace.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/4-2-819x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2763\" width=\"305\" height=\"381\" srcset=\"https:\/\/camilaleporace.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/4-2-819x1024.png 819w, https:\/\/camilaleporace.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/4-2-240x300.png 240w, https:\/\/camilaleporace.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/4-2-768x960.png 768w, https:\/\/camilaleporace.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/4-2-120x150.png 120w, https:\/\/camilaleporace.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/4-2.png 1080w\" sizes=\"(max-width: 305px) 100vw, 305px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>A minha pesquisa de doutorado em intelig\u00eancia artificial aborda esse tema a partir do seguinte ponto de partida: a intelig\u00eancia humana. Na verdade, o ponto de partida \u00e9 a ci\u00eancia cognitiva. Essa \u00e9 a \u00e1rea de pesquisa que se debru\u00e7a sobre a maneira como os animais, n\u00e3o somente os seres humanos, funcionam. Investiga\u00e7\u00f5es passam pela percep\u00e7\u00e3o, mem\u00f3ria, como a gente consegue adquirir conhecimento das coisas, do mundo. Fazer sentido das coisas. Entender. Raciocinar, Tudo isso se refere&nbsp;\u00e0 COGNI\u00c7\u00c3O humana.<\/p>\n\n\n\n<p>A ci\u00eancia cognitiva&nbsp; \u00e9 uma \u00e1rea de pesquisa que se formou a partir da uni\u00e3o de v\u00e1rias \u00e1reas. A neuroci\u00eancia, a biologia, a psicologia, a ci\u00eancia da computa\u00e7\u00e3o s\u00e3o algumas delas. A intelig\u00eancia artificial come\u00e7ou a surgir como uma \u00e1rea de pesquisa mais ou menos na mesma \u00e9poca que surgiu a ci\u00eancia cognitiva. E isso n\u00e3o \u00e9 por acaso.<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisa em IA surge inspirada pela maneira como o ser humano funciona, que \u00e9 justamente o tema de pesquisa da ci\u00eancia cognitiva. S\u00f3 que a ci\u00eancia cognitiva n\u00e3o tem somente UMA vis\u00e3o sobre como isso acontece. Existem v\u00e1rias hip\u00f3teses e v\u00e1rias correntes&nbsp;ou abordagens de estudo diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Existe uma vertente muito forte de pensamento que acredita que tudo que diz respeito \u00e0 cogni\u00e7\u00e3o humana est\u00e1 na cabe\u00e7a, no c\u00e9rebro. Se voc\u00ea olhar para o c\u00e9rebro, vai conseguir entender a mente humana por completo. Se voc\u00ea reproduz o c\u00e9rebro, voc\u00ea tem a mente humana, voc\u00ea reproduz a mente humana. Mas existem outras correntes de pensamento que defendem que n\u00e3o: a mente n\u00e3o se limita ao que a gente pode descobrir pelo c\u00e9rebro. Ela n\u00e3o \u00e9 o c\u00e9rebro, somente, e n\u00e3o adianta estudar o c\u00e9rebro inteiro que n\u00e3o vai dar para entender a mente humana assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Por qu\u00ea? Porque a mente est\u00e1 conectada a elementos do ambiente, ao nosso hist\u00f3rico familiar, social, cultural, \u00e0 nossa evolu\u00e7\u00e3o individual e coletiva e \u00e0s trocas que temos uns com os outros, ao corpo e tudo que ele faz a gente sentir, viver, experimentar e \u00e0s nossas emo\u00e7\u00f5es, \u00e0 nossa intui\u00e7\u00e3o etc. e ainda h\u00e1 muito a ser compreendido sobre isso tudo. \u00c9 claro que o c\u00e9rebro \u00e9 fundamental para a mente, mas n\u00e3o adianta olhar s\u00f3 para neur\u00f4nios localizados no c\u00e9rebro para entender a totalidade da mente humana.<\/p>\n\n\n\n<p>A IA, durante muitos anos, acreditou que daria para reproduzir a mente humana a partir do c\u00e9rebro, e se debru\u00e7ou sobre isso. Mas a pr\u00f3pria rob\u00f3tica foi mostrando que a&nbsp; participa\u00e7\u00e3o do corpo no ambiente \u00e9 importante demais para ser ignorada. O c\u00e9rebro n\u00e3o \u00e9 um processador central que vai devorando tudo que recebe do entorno, enviando informa\u00e7\u00f5es pro corpo e pronto, assim funcionamos. Muita coisa vem da a\u00e7\u00e3o do corpo no mundo, o corpo tamb\u00e9m envia muita informa\u00e7\u00e3o para o c\u00e9rebro. Antonio Dam\u00e1sio \u00e9 uma excelente refer\u00eancia nisso.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Mas, e a IA nisso tudo?<\/h3>\n\n\n\n<p>Quando a gente analisa a IA pelo ponto de vista da cogni\u00e7\u00e3o humana, a gente consegue entender alguns caminhos que podem ajudar a gente a compreender melhor o que \u00e9 a IA. As limita\u00e7\u00f5es da IA nos ajudam, por outro lado, a entender o que a gente \u00e9, como a gente funciona, como a gente aprende.<\/p>\n\n\n\n<p>O ser humano n\u00e3o precisa ver centenas de imagens de um cachorro para entender o que se trata de um cachorro. Pode ver apenas um cachorro e j\u00e1 entender, mesmo que seja uma crian\u00e7a muito pequena. Ela pode confundir gato com cachorro algumas vezes, mas&#8230; ela vai aprender a diferenciar os dois sem ter que decorar que um tem orelha assim e assado e outro daquele jeito. E ela vai entender que \u00e9 gato ou cachorro mesmo que sejam de ra\u00e7as diferentes, que ela nunca viu. J\u00e1 uma IA baseada em aprendizagem de m\u00e1quina n\u00e3o funciona assim.<\/p>\n\n\n\n<p>A IA precisa ter na sua base de dados muitas e muitas imagens para poder comparar e ir separando o que \u00e9 gato e o que \u00e9 cachorro. A IA n\u00e3o conhece contexto. A crian\u00e7a que est\u00e1 aprendendo pode, por exemplo, eliminar a possibilidade de que um animal seja um le\u00e3o porque ele est\u00e1 em casa, e ela aprendeu que n\u00e3o \u00e9 comum ter le\u00e3o em casa. Ela usa v\u00e1rios crit\u00e9rios para avaliar uma situa\u00e7\u00e3o, para fazer sentido da situa\u00e7\u00e3o. Contexto, senso comum , intui\u00e7\u00e3o e experi\u00eancia ajudam nisso.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o eu fui estudar as abordagens para a cogni\u00e7\u00e3o humana que n\u00e3o resumem a mente ao c\u00e9rebro. E elas me ajudaram a enxergar uma nova maneira de abordar a IA. Porque a gente olha para a IA j\u00e1 com uma perspectiva de quem entende que o ser humano tem certos atributos na mente dele que n\u00e3o podem existir num sistema que s\u00f3 \u00e9 bom em reproduzir o c\u00e9rebro humano! Pois \u00e9, a IA \u00e9 baseada em redes neurais. O conexionismo, que \u00e9 a base da aprendizagem de m\u00e1quina, \u00e9 essencialmente redes neurais artificiais. Elas se baseiam nas redes biol\u00f3gicas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A minha pesquisa ajuda, ent\u00e3o, a gente a separar o que a aprendizagem de m\u00e1quina faz daquilo que os seres humanos em processo de aprendizagem podem fazer. Isso n\u00e3o \u00e9 importante somente para a educa\u00e7\u00e3o. Porque eu estou falando de aprender sobre tudo, o tempo todo; aprender sobre o mundo. O ser humano aprende sem parar, n\u00e3o na sala de aula, s\u00f3. Como funciona essa aprendizagem?<\/p>\n\n\n\n<p>Ao entender um pouco sobre a cogni\u00e7\u00e3o humana, podemos entender as limita\u00e7\u00f5es da IA no contexto das nossas vidas, e tamb\u00e9m as potencialidades dela. Fui taxada de pessimista&nbsp;algumas vezes, mas n\u00e3o me vejo assim. Porque eu consigo enxergar com clareza aquilo que \u00e9 t\u00edpico nosso, de animais, de seres humanos, e essas caracter\u00edsticas, quando n\u00f3s as estudamos em profundidade, fica claro que n\u00e3o est\u00e3o perto de ser reproduzidas pelos sistemas artificiais.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, mais do que isso, eu pesquisei premissas. Ou seja, a IA, mesmo que se desenvolva MUITO, deixar\u00e1 de fora alguns atributos que nos tornam quem somos. Que atributos s\u00e3o esses? Como poder\u00edamos n\u00e3o estud\u00e1-los, se queremos entender os impactos da IA nas nossas vidas, na nossa criatividade, no nosso trabalho?<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">N\u00e3o d\u00e1 para evitar a discuss\u00e3o<\/h3>\n\n\n\n<p>Alguns preferem evitar a discuss\u00e3o sobre a cogni\u00e7\u00e3o, at\u00e9 porque ela \u00e9 parceira da filosofia. A filosofia faz perguntas dif\u00edceis sobre o ser humano, a mente, o conhecimento. A gente tem que encarar essas perguntas se n\u00e3o quiser ficar no superficial. O que \u00e9 a mente? O que \u00e9 a cogni\u00e7\u00e3o? Como a gente aprende? Como a gente escreve? Como cria? Como se movimenta?<\/p>\n\n\n\n<p>Se a gente quer entender o que o Chat GPT pode fazer por n\u00f3s, como a gente vai evitar estudar como \u00e9 que a gente escreve? De onde vem a linguagem? A criatividade?<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, no doutorado eu n\u00e3o estudei os usos de tecnologias digitais na educa\u00e7\u00e3o, apesar de trabalhar com isso h\u00e1 anos, desde 2007. Eu me aprofundei no estudo da cogni\u00e7\u00e3o, da mente, para entender do que se trata a IA e para entender a aprendizagem humana a partir de perguntas sobre a IA. A partir da minha pesquisa, cheguei a uma argumenta\u00e7\u00e3o muito interessante sobre como a intera\u00e7\u00e3o entre seres humanos \u00e9 diferente da intera\u00e7\u00e3o entre um humano e um bot. Claro que sabemos que \u00e9 diferente, mas por qu\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>Existem v\u00e1rios detalhes nisso, que se relacionam exatamente com a nossa cogni\u00e7\u00e3o, e nos ajudam a entender por que o chat pode no m\u00e1ximo simular uma conversa. Mesmo que a IA passe no Teste de Turing, isso n\u00e3o significa que ela tem consci\u00eancia, que pode criar algo, desenvolver.<br>Se voc\u00ea n\u00e3o sabe o que \u00e9 o Teste de Turing eu posso te contar, ou voc\u00ea<em> googla<\/em>, porque agira \u00e9 bem famoso. Se quer saber mais sobre isso tudo, estamos juntoas: o doutorado acabou, mas a minha pesquisa est\u00e1 longe de terminar. Quando \u00e9 a hora de parar de pesquisar como os seres humanos aprendem? Acho que nunca, porque ainda tem tanto que a gente n\u00e3o sabe. E, quanto mais a gente descobre, mais vai mudando a nossa percep\u00e7\u00e3o sobre a maneira como a IA afeta&nbsp;as nossas vidas. <\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, hoje, com certeza, posso dizer que sistemas de IA n\u00e3o v\u00e3o fazer o que seres humanos fazem, nao importa o quanto eles evoluam. \u00c9 uma premissa. Eles n\u00e3o t\u00eam certos atributos que serem humanos t\u00eam.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O que me faria mudar de ideia? <\/h3>\n\n\n\n<p>Descobrir que na verdade os seres humanos funcionam de outra maneira. De uma maneira&nbsp;diferente da que acredito hoje, e que n\u00e3o \u00e9 mera cren\u00e7a infundada, mas deriva da minha pesquisa. Ou seja, a minha percep\u00e7\u00e3o sobre o humano \u00e9 que teria que mudar para eu acreditar na supera\u00e7\u00e3o da IA sobre n\u00f3s. N\u00e3o o contr\u00e1rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>P.S.: Vamos aproveitar e evitar ficar rob\u00f3ticos, porque assim fica mais f\u00e1cil de a IA copiar a gente. Mas isso \u00e9 assunto para outro texto, acho.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A minha pesquisa de doutorado em intelig\u00eancia artificial aborda esse tema a partir do seguinte ponto de partida: a intelig\u00eancia humana. 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