{"id":1730,"date":"2020-12-10T16:02:43","date_gmt":"2020-12-10T16:02:43","guid":{"rendered":"http:\/\/camilaleporace.com.br\/?p=1730"},"modified":"2020-12-11T02:32:46","modified_gmt":"2020-12-11T02:32:46","slug":"e-na-direcao-do-viver-que-nossas-mentes-se-orientam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/camilaleporace.com.br\/index.php\/2020\/12\/10\/e-na-direcao-do-viver-que-nossas-mentes-se-orientam\/","title":{"rendered":"\u00c9 na dire\u00e7\u00e3o do viver que nossas mentes se orientam*"},"content":{"rendered":"\n<p>Neste final de ano pand\u00eamico, em que apesar das dificuldades tenho muita coisa a agradecer, tenho me sentido flutuando. N\u00e3o sinto meus p\u00e9s no ch\u00e3o, parece que h\u00e1 uma eterna n\u00e9voa, quase posso v\u00ea-la e toc\u00e1-la; <\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma esp\u00e9cie de camada de uma fina poeira entre Eu e o mundo, que se coloca como uma fase a mais a mediar o estar-no-momento-presente, o estar&#8211;no-mundo, o mundo da doen\u00e7a, um mundo desconhecido;<\/p>\n\n\n\n<p>A pandemia, t\u00e3o real, por vezes parece o mais irreal poss\u00edvel, porque \u00e9 real e irreal; irreal porque nos \u00e9 estranha, e o que \u00e9 estranho ainda n\u00e3o surge, de fato, para n\u00f3s, em toda a sua dimens\u00e3o; surge aos poucos, na medida em que se torna parte de n\u00f3s, e esse tornar-se parte se d\u00e1 em etapas;<\/p>\n\n\n\n<p>O cont\u00e1gio se d\u00e1 sem que tenhamos a <em>affordance<\/em> de ver, tocar ou sentir; mas, mesmo aquilo que n\u00e3o vemos, ou que n\u00e3o tocamos, se torna algo para n\u00f3s na medida em que se torna algo para todos, constitutivo do mundo;<\/p>\n\n\n\n<p>As mortes se d\u00e3o sem uma digna despedida, o que torna o impalp\u00e1vel ainda menos concreto e o superar das perdas uma tarefa de dar n\u00f3 no invis\u00edvel; <\/p>\n\n\n\n<p>Com que materialidades lidamos? Como lidamos com uma n\u00e3o-materialidade (obscura)?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um mundo do qual ainda n\u00e3o nos apropriamos e, quando nos faltam as habilidades corporais para estar no mundo de uma maneira situada, sentimo-nos como o sujeito cartesiano, morada de si mesmo, des-situado, des-vinculado, des-socializado, des-territorializado. Sujeito que se basta, com seu conhecimento internalizado;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas que na verdade n\u00e3o se basta de maneira alguma porque at\u00e9 para ser no mundo j\u00e1 precisamos ser situados, vinculados,  socializados, territorializados;<\/p>\n\n\n\n<p>O ser s\u00f3 \u00e9 ser em movimento fluido e cont\u00ednuo com outros seres, porque ningu\u00e9m \u00e9 s\u00f3 si mesmo, e quando \u00e9 Si \u00e9 tamb\u00e9m Outro: \u00e9 Self, Outro e Mundo ao mesmo tempo. Ser n\u00e3o \u00e9 sempre ser; ser \u00e9 estar;<\/p>\n\n\n\n<p>A cada momento, o que somos se transforma. N\u00e3o \u00e9 que se desfa\u00e7amos no ar como poeira; h\u00e1 uma ess\u00eancia que se mant\u00e9m: \u00e9 como a manuten\u00e7\u00e3o de uma canoa em alto mar, \u00e9 preciso trocar cada t\u00e1bua de madeira de uma vez, ou a canoa afunda, e ao final, mesmo que todas as t\u00e1buas tenham sido trocadas, ainda ser\u00e1 a mesma canoa;<\/p>\n\n\n\n<p>Neste mar de ondas altas que ainda n\u00e3o dominamos \u2013 e que, qui\u00e7\u00e1, n\u00e3o dominaremos \u2013 ainda assim aprendemos a surfar, utilizando-nos das ferramentas que at\u00e9 hoje nos ajudaram a surfar outras ondas. Porque \u00e9 pela sobreviv\u00eancia que trabalhamos;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 na dire\u00e7\u00e3o do viver e do vem-a-ser que nossas mentes se orientam;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas este mar nos leva a um n\u00e3o-sei-onde que ningu\u00e9m \u00e9 capaz de revelar, o que se explica: pois n\u00e3o \u00e9 algo que se revele como uma fotografia, j\u00e1 que o ente fotografado ainda n\u00e3o existe &#8211; \u00e9 um devir; \u00e9 mais um est\u00e1-para-ser do que um ser;<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo se o pano de fundo \u00e9 um mundo em constru\u00e7\u00e3o, porque \u00e9, somos todos tamb\u00e9m, individualmente, seres em transforma\u00e7\u00e3o, como a canoa em reforma cont\u00ednua. As t\u00e1buas mudam, mesmo que aos olhos n\u00e3o pare\u00e7a que h\u00e1 algo acontecendo;<\/p>\n\n\n\n<p>Nosso devir \u00e9 o devir do mundo; <\/p>\n\n\n\n<p>E n\u00e3o \u00e9 que nos <em>adaptemos<\/em> \u00e0s mudan\u00e7as do mundo: essas mudan\u00e7as s\u00e3o o que somos, n\u00e3o respondemos a elas como se d\u00e1 uma resposta a algo que acontece, se recolhe algo que caiu, se enxuga algo que molhou, n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 assim nossa rela\u00e7\u00e3o com o mundo, apartada, responsiva; trata-se de um eterno acomodar, de um encaixe, de uma engrenagem de mil lados;<\/p>\n\n\n\n<p>Estamos todos, em qualquer lugar que seja, ancorados num mesmo ponto de partida;  o ponto de partida \u00e9 ineg\u00e1vel e a tudo recontextualiza, gerando uma reviravolta. E n\u00e3o h\u00e1 quem possa dizer &#8220;o caminho \u00e9 esse, vamos por ali&#8221; porque o caminho n\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel, \u00e9 n\u00e9voa;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 claro que a  ci\u00eancia aponta dire\u00e7\u00f5es, com base nas habilidades antes adquiridas e nos resultados at\u00e9 hoje conquistados, e a intui\u00e7\u00e3o, o afeto, se somam aos esfor\u00e7os m\u00e9dicos e cient\u00edficos, num certo sentido que faz sentido. Mas o caminho precisa ser constru\u00eddo enquanto caminhamos, uma pedra ap\u00f3s a outra, e assim aos poucos algo se concretiza e conseguimos ver o invis\u00edvel e compreender o incompreens\u00edvel; <\/p>\n\n\n\n<p>De todo modo, se n\u00e3o devemos nos conformar jamais com o sadismo do n\u00e3o enfrentamento do Estado de uma doen\u00e7a do mundo que deixa os cidad\u00e3os \u00e0 merc\u00ea em uma tempestade em alto mar, e isso vou pontuar mesmo que esteja aqui deixando desdobrarem-se pensamentos ainda inexistentes que surgem enquanto s\u00e3o pensados;<\/p>\n\n\n\n<p>E, ainda, se n\u00e3o devemos nos conformar com aqueles que jogam \u00e1gua dentro do pr\u00f3prio barco em que est\u00e3o navegando; <\/p>\n\n\n\n<p>Devemos, por outro lado, nos acostumar com a materialidade do invis\u00edvel, pois ela n\u00e3o \u00e9 m\u00e1:<\/p>\n\n\n\n<p>O invis\u00edvel \u00e9 tamb\u00e9m amor e cuidado; <\/p>\n\n\n\n<p>Percebamos: a materialidade desse amor e desse cuidado se tornou, justamente, a imaterialidade (do encontro, do Outro, e at\u00e9 de si mesmo; tendo um v\u00edrus mortal circulando dentro de Si, h\u00e1 quem n\u00e3o consiga se ver mais ali e v\u00ea o pr\u00f3prio Ser como n\u00e3o Ser; o intruso modifica o Ser e a percep\u00e7\u00e3o de Si; a puls\u00e3o da vida querendo excrementar o elemento da morte). <\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 fato que no invis\u00edvel deu-se o ato maior de amor para com aqueles que precisam de cuidado; nesse caso, um invis\u00edvel t\u00e3o vis\u00edvel que desafia a vis\u00e3o pela vis\u00e3o. O invis\u00edvel \u00e9, portanto, real.<\/p>\n\n\n\n<p>O que ainda seremos \u00e9 exatamente aquilo que nos define. O invis\u00edvel do devir. Ent\u00e3o, cuidemo-nos, lembrando: somos um ao outro, s\u00f3 somos com o Outro e pelo Outro. O Ser sozinho \u00e9 um n\u00e3o-Ser.<\/p>\n\n\n\n<p>*Este post foi escrito a partir de aprendizagens e inspira\u00e7\u00f5es oriundas do trabalho dos fil\u00f3sofos Ezequiel Di Paolo, Andy Clark, Evan Thompson, Maurice Merleau-Ponty, Hubert Dreyfus e Dan Zahavi, e das aulas e discuss\u00f5es com o professor Ralph Bannell.<\/p>\n\n\n\n<p>Imagem do post: <a href=\"https:\/\/unsplash.com\/@pawel_czerwinski?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText\">Pawe\u0142 Czerwi\u0144ski<\/a>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste final de ano pand\u00eamico, em que apesar das dificuldades tenho muita coisa a agradecer, tenho me sentido flutuando. 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