{"id":1896,"date":"2021-03-25T20:26:33","date_gmt":"2021-03-25T20:26:33","guid":{"rendered":"http:\/\/camilaleporace.com.br\/?p=1896"},"modified":"2021-03-25T20:47:17","modified_gmt":"2021-03-25T20:47:17","slug":"notas-sobre-filosofia-e-ciencia-2-o-estudo-da-experiencia-a-partir-da-primeira-pessoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/camilaleporace.com.br\/index.php\/2021\/03\/25\/notas-sobre-filosofia-e-ciencia-2-o-estudo-da-experiencia-a-partir-da-primeira-pessoa\/","title":{"rendered":"Notas sobre filosofia e ci\u00eancia (2): o estudo da experi\u00eancia a partir da primeira pessoa"},"content":{"rendered":"\n<p>Este post foi escrito a partir do artigo<a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\" An Introduction to the Enactive Scientific Study of Experience (Moguillansky, Demsar &amp; Riegler, 2021)  (opens in a new tab)\" href=\"https:\/\/constructivist.info\/16\/2\/133\" target=\"_blank\"> <\/a><em><a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\" An Introduction to the Enactive Scientific Study of Experience (Moguillansky, Demsar &amp; Riegler, 2021)  (opens in a new tab)\" href=\"https:\/\/constructivist.info\/16\/2\/133\" target=\"_blank\">An Introduction to the Enactive Scientific Study of Experience <\/a><\/em><a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\" An Introduction to the Enactive Scientific Study of Experience (Moguillansky, Demsar &amp; Riegler, 2021)  (opens in a new tab)\" href=\"https:\/\/constructivist.info\/16\/2\/133\" target=\"_blank\">(Moguillansky, Demsar &amp; Riegler, 2021) <\/a>e dos livros <em><a href=\"https:\/\/mitpress.mit.edu\/books\/embodied-mind-revised-edition\">The Embodied Mind<\/a><\/em><a href=\"https:\/\/mitpress.mit.edu\/books\/embodied-mind-revised-edition\"> (Varela, Thompson e Rosch, 2016)<\/a> e <em><a href=\"https:\/\/www.hup.harvard.edu\/catalog.php?isbn=9780674057517\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Mind in Life (Thompson, 2007). (opens in a new tab)\">Mind in Life<\/a><\/em><a href=\"https:\/\/www.hup.harvard.edu\/catalog.php?isbn=9780674057517\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Mind in Life (Thompson, 2007). (opens in a new tab)\"> (Thompson, 2007).<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A ci\u00eancia \u00e9 feita a partir da observa\u00e7\u00e3o. Entende-se que aquilo que se observa est\u00e1 no mundo como algo alheio ao observador; algo separado dele. O problema com isso \u00e9 que estamos inseridos no pr\u00f3prio mundo que desejamos desvendar por meio da ci\u00eancia. Ent\u00e3o, o estudo da experi\u00eancia humana deveria ser foco da aten\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar disso, demorou para que fosse lan\u00e7ada essa luz sobre a observa\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia em si. A ci\u00eancia ocidental negligenciou a experi\u00eancia a partir da primeira pessoa para privilegiar a perspectiva da terceira pessoa. O conhecimento sob a perspectiva da primeira pessoa, por sua vez, tem sido considerado pouco confi\u00e1vel ou sujeito a desvios.<\/p>\n\n\n\n<p>De todo modo, isso tem mudado: a vis\u00e3o tradicional que\ncoloca o objeto de estudo de um lado e o observador de outro, gerando um abismo\nquando se trata justamente de compreender a experi\u00eancia humana, tem sido\ndesafiada junto com uma vis\u00e3o cr\u00edtica, emergente, que reconhece o papel do\nobservador e de sua experi\u00eancia corporificada (isto \u00e9, levando em conta o seu\ncorpo como um todo, e de v\u00e1rias maneiras \u2013 a partir de uma concep\u00e7\u00e3o de cogni\u00e7\u00e3o\ncorporificada e situada) para a gera\u00e7\u00e3o de conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Existe um programa de pesquisa chamado NEUROFENOMENOLOGIA, proposto por Francisco Varela (1996), que trata justamente de desenvolver uma ci\u00eancia para o estudo da consci\u00eancia. A proposta valoriza a experi\u00eancia vivida, convocando um di\u00e1logo entre as abordagens tradicionais, fundamentadas na terceira pessoa, e a investiga\u00e7\u00e3o a partir da perspectiva da primeira pessoa. M\u00e9todos e procedimentos espec\u00edficos para esse tipo de pesquisa t\u00eam sido desenvolvidos. Ainda n\u00e3o est\u00e1 consolidada a maneira de aproximar as perspectivas da primeira e da terceira pessoa, mas isso est\u00e1 sendo encaminhado e tem sido objeto de debate no campo da ci\u00eancia cognitiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali\u00e1s, como ressaltam os autores do artigo <em>An Introduction to the Enactive Scientific Study of Experience <\/em>(Moguillansky, Demsar &amp; Riegler, 2021), o estudo da cogni\u00e7\u00e3o humana \u00e9 marcado por um paradoxo: o ser humano e a maneira como obtemos conhecimento do mundo torna-se o pr\u00f3prio objeto de estudo de&#8230; seres humanos tentando conhecer melhor o mundo; leia-se os cientistas cognitivos, fil\u00f3sofos, psic\u00f3logos e afins. Isto \u00e9, se a ci\u00eancia empreende esfor\u00e7os para investigar fen\u00f4menos, produzindo explica\u00e7\u00f5es e descri\u00e7\u00f5es desses fen\u00f4menos, a ci\u00eancia cognitiva tem como principal fen\u00f4meno de investiga\u00e7\u00e3o a cogni\u00e7\u00e3o em si.<\/p>\n\n\n\n<p>Historicamente, temos aplicado regras para estudar a realidade \u2013 regras que comp\u00f5em metodologias cient\u00edficas desenvolvidas para estudar objetos desatachados de seus observadores, e que remetem a Descartes, fil\u00f3sofo racionalista que procurou criar um m\u00e9todo para chegar \u00e0 verdade cient\u00edfica. Descartes via a realidade como algo separado de n\u00f3s; para compreendermos essa realidade, dever\u00edamos separ\u00e1-la em pedacinhos menores, mais simples, para depois evoluir para algo mais complexo que juntasse esses peda\u00e7os (assim ele compreendia a nossa apreens\u00e3o da realidade; uma concep\u00e7\u00e3o que vinha da f\u00edsica, tal como estava se desenvolvendo na \u00e9poca dele, no s\u00e9culo XVII). Bem, Descartes veio antes da fenomenologia, que viria propor justamente o estudo da experi\u00eancia, partindo do todo, n\u00e3o de partes constitutivas do todo.<\/p>\n\n\n\n<p>E hoje n\u00e3o temos apenas um m\u00e9todo, como j\u00e1 mencionei. <\/p>\n\n\n\n<p>O problema \u00e9 que se passaram s\u00e9culos e continuamos tratando a realidade como algo separado de n\u00f3s mesmos. Ent\u00e3o, a proposta de investigar a partir da primeira pessoa \u00e9 uma proposta para tentar ajustar isso. <\/p>\n\n\n\n<p>Os autores do artigo explicam que \u00e9 necess\u00e1rio desenvolver \u201cuma concep\u00e7\u00e3o n\u00e3o objetivista da ci\u00eancia que torne imposs\u00edvel pensar na ci\u00eancia como uma ferramenta para lan\u00e7ar luz sobre as coisas em si. Em vez disso, o entendimento enativo da ci\u00eancia sugere que devemos considerar a atividade cient\u00edfica como a extra\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica e cada vez mais sofisticada de regras da nossa pr\u00f3pria experi\u00eancia vivida. Como tal, a ci\u00eancia n\u00e3o apenas \u00e9 fal\u00edvel e propensa a erros, mas tamb\u00e9m inextricavelmente conectada a n\u00f3s\u201d.*<\/p>\n\n\n\n<p>\ufeffIsso, por si s\u00f3, j\u00e1 \u00e9 uma reorienta\u00e7\u00e3o do olhar. Pois caminhamos de uma apreens\u00e3o das coisas como elas s\u00e3o, aplicando regras pr\u00e9-fabricadas sobre objetos \u201calheios\u201d a n\u00f3s, para uma mudan\u00e7a conceitual e postural, que consiste em tentar colher das pr\u00f3prias coisas que observamos as regras para observ\u00e1-las. Um dos principais pontos dessa mudan\u00e7a \u00e9 que, ao reportar experi\u00eancias, isto \u00e9, falar sobre elas, as pessoas tendem a reproduzir cren\u00e7as sobre como essas experi\u00eancias acontecem, sobre si mesmas, sobre o mundo, em vez de se ater \u00e0 experi\u00eancia vivida, em si. \u00c9 uma quest\u00e3o do que \u00e9\/o que existe versus o que \u00e9 descrito\/estudado; de novo a ontologia e epistemologia; como quando passamos por uma situa\u00e7\u00e3o de p\u00e2nico e depois contamos sobre a situa\u00e7\u00e3o a algu\u00e9m. O que sentimos \u00e9 uma coisa, o que contamos \u00e9 outra (que pode conter muito da primeira, mas pode passar por v\u00e1rias releituras e racionaliza\u00e7\u00f5es quando j\u00e1 estamos &#8220;fora&#8221; daquela a\u00e7\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda segundo o artigo que menciono aqui, os primeiros estudos com m\u00e9todos bem definidos, no contexto neurofenomenol\u00f3gico, foram conduzidos pela pesquisadora Claire Petitmengin e trataram do surgimento da intui\u00e7\u00e3o. Eles deram origem ao que hoje se denomina <strong><em>entrevista microfenomenol\u00f3gica<\/em><\/strong>. A ideia \u00e9 \u201cauxiliar o entrevistado a selecionar uma experi\u00eancia singular, precisamente situada no espa\u00e7o e no tempo, \u2018evocando\u2019 essa experi\u00eancia e descrevendo-a. A descri\u00e7\u00e3o geralmente visa elucidar tanto a dimens\u00e3o s\u00edncrona quanto a diacr\u00f4nica de uma dada experi\u00eancia. A primeira se refere \u00e0 configura\u00e7\u00e3o de diferentes aspectos da \u2018paisagem\u2019 experiencial em um determinado momento, e a \u00faltima a como essa paisagem experiencial se desdobrou ao longo do tempo. Auxiliar o entrevistado a fornecer esta descri\u00e7\u00e3o implica em afrouxar sua absor\u00e7\u00e3o no conte\u00fado (o &#8220;o que&#8221;) da experi\u00eancia, fazendo perguntas espec\u00edficas que permitem a articula\u00e7\u00e3o de seu modo de doa\u00e7\u00e3o (o &#8220;como&#8221;), bem como fazer o entrevistado concentrar-se na experi\u00eancia vivida sempre que se desviar dela para descrever generaliza\u00e7\u00f5es, explica\u00e7\u00f5es, cren\u00e7as ou julgamentos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo ap\u00f3s algumas leituras, claro, ainda tenho v\u00e1rias quest\u00f5es sobre como a entrevista microfenomenol\u00f3gica \u00e9 conduzida, as dificuldades que envolve etc. Algumas delas com certeza ser\u00e3o elucidadas junto a uma das autoras do artigo, Dra. Camila Moguillansky, que estar\u00e1 com o grupo de pesquisa GEPFE, de Filosofia da Educa\u00e7\u00e3o, de que participo na PUC-Rio. Compartilho mais depois.<\/p>\n\n\n\n<p>*Tradu\u00e7\u00f5es feitas por mim, do ingl\u00eas<\/p>\n\n\n\n<p>Imagem do post: <a href=\"https:\/\/unsplash.com\/@icons8?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText\">Icons8 Team<\/a> @ <a href=\"https:\/\/unsplash.com\/s\/photos\/earth-globe?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText\">Unsplash<\/a>   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este post foi escrito a partir do artigo An Introduction to the Enactive Scientific Study of Experience (Moguillansky, Demsar &amp; Riegler, 2021) e dos livros The Embodied Mind (Varela, Thompson <a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/camilaleporace.com.br\/index.php\/2021\/03\/25\/notas-sobre-filosofia-e-ciencia-2-o-estudo-da-experiencia-a-partir-da-primeira-pessoa\/\">Read More &#8230;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1897,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4,8,9,10,52,51,14,48,15],"tags":[],"class_list":["post-1896","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ciencia","category-educacao","category-education","category-embodied-cognition","category-enactivism","category-enativismo","category-filosofia","category-filosofia-da-educacao","category-inspiracao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/camilaleporace.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1896"}],"collection":[{"href":"https:\/\/camilaleporace.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/camilaleporace.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/camilaleporace.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/camilaleporace.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1896"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/camilaleporace.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1896\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1903,"href":"https:\/\/camilaleporace.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1896\/revisions\/1903"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/camilaleporace.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1897"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/camilaleporace.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1896"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/camilaleporace.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1896"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/camilaleporace.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1896"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}