{"id":2204,"date":"2019-02-03T14:53:03","date_gmt":"2019-02-03T14:53:03","guid":{"rendered":"http:\/\/camilaleporace.com.br\/?p=2204"},"modified":"2023-02-13T20:23:24","modified_gmt":"2023-02-13T20:23:24","slug":"diabetes-de-crianca-responsabilidade-de-adulto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/camilaleporace.com.br\/index.php\/2019\/02\/03\/diabetes-de-crianca-responsabilidade-de-adulto\/","title":{"rendered":"Diabetes de crian\u00e7a, responsabilidade de adulto"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Camila Leporace<\/h4>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><em>(Publicada em 2007 no site Opini\u00e3o &amp; Not\u00edcia, que foi encerrado em 2020, recebeu o Pr\u00eamio da Sociedade Brasileira de Diabetes na categoria online &#8211; 2007)<\/em><\/h4>\n\n\n\n<p>Na hora do\nlanche, na escola, hamb\u00fargueres e refrigerantes passam longe de Jo\u00e3o Gabriel\nFerreira, de sete anos. Acostumado a uma alimenta\u00e7\u00e3o diferente, ele leva na\nmochila biscoitos integrais e um suco light ou um iogurte diet. \u00c0s vezes,\napesar de j\u00e1 habituado a essa alimenta\u00e7\u00e3o cuidadosa, lamenta por n\u00e3o poder\ncomer \u201ccomo as outras pessoas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O diabetes\ntipo 1, que exigiria de Jo\u00e3o mudan\u00e7as significativas na rotina e nos h\u00e1bitos,\nfoi diagnosticado quando ele tinha dois anos e meio de idade. \u201cNo in\u00edcio foi\ncomplicado\u201d, conta sua m\u00e3e, Heloisa Ferreira, que afirma que hoje est\u00e1 adaptada\n\u00e0 situa\u00e7\u00e3o. \u201cMuito raramente tomamos sustos com a hipoglicemia, ele fala que\nest\u00e1 passando mal e vai ficando mole. \u00c9 dif\u00edcil, mas sabemos que temos que\ntomar provid\u00eancia imediata, n\u00e3o podemos deixar o emocional tomar conta\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A Federa\u00e7\u00e3o\nInternacional de Diabetes (IDF, na sigla em ingl\u00eas) estima \u2013 segundo relat\u00f3rio\npublicado em dezembro de 2006 \u2013 que cerca de 440 mil jovens abaixo dos 14 anos\nde idade, em todo o mundo, tenham diabetes tipo 1, ou seja, sejam\ninsulino-dependentes como Jo\u00e3o Gabriel. Mais de 70 mil crian\u00e7as desenvolveriam\nesse tipo da doen\u00e7a a cada ano. Entre 5 e 10% do total de diab\u00e9ticos em todo o\nmundo s\u00e3o do tipo 1, enquanto cerca de 90% t\u00eam o tipo 2. O aparecimento da\ndoen\u00e7a provoca altera\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00f3 na vida das crian\u00e7as e adolescentes como na de\ntoda a fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Rotina,\ndisciplina, planejamento e equil\u00edbrio s\u00e3o itens que, segundo especialistas, n\u00e3o\npodem faltar na vida dos insulino-dependentes. Segundo o endocrinologista Isaac\nBenchimol, \u00e9 comum os pais sentirem uma esp\u00e9cie de impot\u00eancia diante do filho\ncom diabetes, pelo fato de que mesmo sem serem m\u00e9dicos precisam cuidar da\ndoen\u00e7a deles. Para ajudar nesse processo, Dr. Benchimol acredita ser importante\nque os pais se informem, tenham curiosidade sobre o diabetes e corram atr\u00e1s de\nsaber o m\u00e1ximo poss\u00edvel sobre a doen\u00e7a. O mesmo devem fazer as pr\u00f3prias crian\u00e7as\ne os adolescentes diab\u00e9ticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de\ncuriosidade para aprender e se manter informado, \u00e9 fundamental, segundo o\nendocrinologista, que os portadores de diabetes tenham disciplina. \u201cEles\nprecisam entender que, quanto maior o controle do metabolismo, melhor a sua\nqualidade de vida\u201d, diz o m\u00e9dico. Dr. Paulo Solberg, tamb\u00e9m endocrinologista,\nconcorda. \u201cQuanto melhor o controle glic\u00eamico, menor a chance de complica\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a\nIDF, quando o diabetes \u00e9 detectado em jovens, sua expectativa de vida \u00e9 reduzida\nem dez a 20 anos. No entanto, isso n\u00e3o \u00e9 motivo para desespero, pois a\nexplica\u00e7\u00e3o, segundo o Dr. Benchimol, \u00e9 que estat\u00edsticas assim s\u00e3o feitas com\nbase em m\u00e9dias. \u201cE essas m\u00e9dias incluem quem se cuida e quem n\u00e3o se cuida\u201d,\nanalisa, complementando que h\u00e1bitos saud\u00e1veis e disciplinados podem permitir\nque o diab\u00e9tico tenha expectativa de vida semelhante \u00e0 de pessoas que n\u00e3o t\u00eam a\ndoen\u00e7a. Dr. Paulo Solberg cita outra explica\u00e7\u00e3o para essas estat\u00edsticas. \u201cQuem\n\u00e9 diagnosticado hoje tem na m\u00e3o uma gama de recursos que quem foi diagnosticado\nh\u00e1 20 anos n\u00e3o tinha. Hoje em dia, consegue-se um controle muito melhor\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cuidados\nat\u00e9 de madrugada<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o\nDr. Solberg, entre as grandes dificuldades dos pais com filhos diab\u00e9ticos est\u00e3o\no medo da queda no n\u00edvel de a\u00e7\u00facar no sangue \u2013 a hipoglicemia -, a dificuldade\nde aceitar que o filho tem uma doen\u00e7a cr\u00f4nica e a adapta\u00e7\u00e3o a uma rotina maior,\ncom uma programa\u00e7\u00e3o menos espont\u00e2nea. Crian\u00e7as pequenas, muitas vezes, t\u00eam\noutros problemas \u2013 como a dificuldade para aceitar a aplica\u00e7\u00e3o de inje\u00e7\u00f5es ou a\nrejei\u00e7\u00e3o da alimenta\u00e7\u00e3o depois que seus pais j\u00e1 lhe deram doses de insulina \u2013\nenquanto, na adolesc\u00eancia, a disciplina exigida pelo diabetes entra em conflito\ncom a rebeldia e a falta de rotina t\u00edpicos da faixa et\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes das\nrefei\u00e7\u00f5es, Jo\u00e3o Gabriel recebe aplica\u00e7\u00f5es de insulina de acordo com a\nquantidade de carboidratos que ir\u00e1 ingerir. Mesmo de madrugada, seus pais\nacordam para realizar no menino dois exames e checar a taxa de glicemia em seu\nsangue. \u201cA rotina \u00e9 um pouco dura\u201d, diz Heloisa, relatando que Jo\u00e3o acorda \u00e0s\n9h e toma dois tipos de insulina, a de a\u00e7\u00e3o basal \u2013 que dura 24 horas no\norganismo \u2013 e a ultra-r\u00e1pida \u2013 que come\u00e7a a fazer efeito cinco minutos depois\nde ser aplicada e tem a\u00e7\u00e3o que se estende por cerca de duas horas \u2013 para tomar\no caf\u00e9 da manh\u00e3. Ele toma tamb\u00e9m insulina ultra-r\u00e1pida para almo\u00e7ar e para\njantar e faz cerca de dois exames de tarde na escola: para verificar se est\u00e1\ncom hiperglicemia, na hora do lanche, e avaliar se precisa de insulina, caso\nesteja com hipoglicemia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cFazemos a\ncontagem de carboidratos, o que facilitou muito a vida do meu filho \u2013 e a minha\ntamb\u00e9m\u201d, conta Claudia Valli, m\u00e3e de Tom, seis anos, diagnosticado portador de\ndiabetes tipo 1 aos dois anos e cinco meses. \u201cPor isso, ele come quase tudo,\ntem uma dieta saud\u00e1vel, equilibrada e, nas festinhas, at\u00e9 come bolo e\nbrigadeiro, o que o deixa radiante. \u00c9 claro que ele tem uma rotina mais r\u00edgida\ndo que a de outras crian\u00e7as, tem hor\u00e1rios e regras. E n\u00e3o tem essa de \u2018relaxar\ns\u00f3 hoje\u2019. Diabetes n\u00e3o tira f\u00e9rias, nem tem feriado\u201d, conta Claudia,\napresentando ao mesmo tempo toler\u00e2ncia com o fato de o filho ser crian\u00e7a e\nresponsabilidade com a necessidade que apresenta por ser diab\u00e9tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem sempre\na dieta de uma pessoa diab\u00e9tica exige cortar de vez aqueles lanches\nhipercal\u00f3ricos adorados pelas crian\u00e7as. No entanto, se qualquer pessoa deve ter\numa alimenta\u00e7\u00e3o equilibrada, os diab\u00e9ticos precisam mais ainda, conforme\nenfatiza o Dr. Solberg, complementando que \u00e9 preciso analisar caso-a-caso e que\no grau de rigidez com a dieta pode ser diferente dependendo do paciente.<\/p>\n\n\n\n<p>O\nplanejamento tamb\u00e9m \u00e9 importante. Segundo o Dr. Benchimol, o ideal para quem\ntem diabetes \u00e9 saber que vai \u201cerrar\u201d, pensar no que vai consumir e, consciente\nde que naquele dia vai exagerar, calcular a dose de insulina necess\u00e1ria j\u00e1 com\nbase nisso. Ao mesmo tempo, n\u00e3o se pode injetar uma alta dose do horm\u00f4nio e\ndepois n\u00e3o consumir a quantidade ou qualidade de alimentos que o organismo se\nprepara para receber.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de\ncontrolar a alimenta\u00e7\u00e3o de uma forma geral, os pais de filhos diab\u00e9ticos vivem\n\u00e0s voltas com os hor\u00e1rios das medi\u00e7\u00f5es da taxa de glicose. Claudia, que assim\ncomo Heloisa acorda de madrugada para medir a glicose do filho, at\u00e9 preparou\numa apostila para a escola e ensinou as professoras de Tom a medir a taxa de\nglicose e administrar qualquer eventualidade. \u201cMesmo assim, quase todas as\ntardes eu recebo um telefonema de l\u00e1. Por isso, eu nunca desligo meu celular\u201d,\nconta, mostrando que a doen\u00e7a gera uma tens\u00e3o constante.<\/p>\n\n\n\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o\ndessas m\u00e3es n\u00e3o \u00e9 exagerada. No entanto, a vantagem de a crian\u00e7a ter uma rotina\n\u00e9 a possibilidade de uma tranq\u00fcilidade maior, com melhor controle e\nacompanhamento freq\u00fcente da glicemia. \u201cSe voc\u00ea conhece a rotina da crian\u00e7a,\npode at\u00e9 saber de quanta insulina ou carboidratos ela vai precisar antes de uma\natividade f\u00edsica, por exemplo\u201d, explica o Dr. Solberg, afirmando que al\u00e9m dos\ncuidados familiares esses pacientes devem ir a consultas de tr\u00eas em tr\u00eas meses,\nem m\u00e9dia, e estar sempre em contato com seus m\u00e9dicos, informando-lhes sobre a\ntaxa de glicose por e-mail ou telefone, por exemplo \u2013 medidas que o Dr.\nBenchimol tamb\u00e9m aprova.<\/p>\n\n\n\n<p>Fazer\nexerc\u00edcios f\u00edsicos \u00e9 recomendado, pois movimentar-se ajuda a promover uma maior\na\u00e7\u00e3o da insulina e a manter um peso saud\u00e1vel. Os diab\u00e9ticos podem fazer\nqualquer atividade f\u00edsica, segundo os especialistas. Se desejarem realizar um\nesporte mais \u201cradical\u201d, no entanto, \u00e9 importante que fa\u00e7am um planejamento e\ntenham \u00e0 sua volta pessoas que saibam da sua condi\u00e7\u00e3o para ajud\u00e1-los se\nnecess\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo\ncom o Dr. Benchimol, um acompanhamento psicol\u00f3gico pode ser necess\u00e1rio, tamb\u00e9m,\npara que a crian\u00e7a diab\u00e9tica entenda seus limites. Dr. Paulo Solberg acredita\nque esse acompanhamento \u00e9 bom para todas as crian\u00e7as, pois nessa fase da vida \u00e9\ndif\u00edcil se sentir diferente. \u201cE ter a alimenta\u00e7\u00e3o controlada, a rotina do\ndiab\u00e9tico, \u00e9 ser diferente\u201d, enfatiza.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Bom\nhumor para encarar desafios<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cUma vez\ncomprei um sabonete de erva-doce e, quando o Tom foi lavar as m\u00e3os, ele disse: \u2018M\u00e3e,\no sabonete \u00e9 de erva-doce. Eu n\u00e3o posso. N\u00e3o tem erva-diet?&#8217;\u201d, conta Claudia\nValli, que al\u00e9m de m\u00e3e do Tom \u00e9 autora da pe\u00e7a&nbsp;<em>Meu Filho \u00e9 um Doce<\/em>,\nem cartaz no Rio de Janeiro. Ela n\u00e3o resistiu e inseriu a pergunta do filho no\nroteiro da pe\u00e7a, que tem como objetivo mostrar como o bom humor pode ajudar a\nsuperar grandes obst\u00e1culos e tornar a vida mais leve.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSenti que\nprecisava, de alguma forma, reverter os sentimentos para o bem de todos. E foi\no que fiz. Na minha casa, n\u00e3o existe baixo-astral por causa do diabetes. Existe\nresponsabilidade e cuidados\u201d, relata. \u201cE a pe\u00e7a \u00e9 a maior prova disso. As\npessoas se emocionam, mas riem muito e se divertem tamb\u00e9m. Desde que o Tom\nficou diab\u00e9tico, passei a dar uma festa no dia do diab\u00e9tico (14 de novembro).\nEle adora, pois ganha presente, recebe amigos. Uma vez chegaram a me perguntar:\n\u2018Mas voc\u00ea comemora uma doen\u00e7a?\u2019. Eu respondi que n\u00e3o. Eu comemoro a vida\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Camila Leporace (Publicada em 2007 no site Opini\u00e3o &amp; Not\u00edcia, que foi encerrado em 2020, recebeu o Pr\u00eamio da Sociedade Brasileira de Diabetes na categoria online &#8211; 2007) Na hora <a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/camilaleporace.com.br\/index.php\/2019\/02\/03\/diabetes-de-crianca-responsabilidade-de-adulto\/\">Read More &#8230;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[61],"tags":[],"class_list":["post-2204","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-premiadas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/camilaleporace.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2204"}],"collection":[{"href":"https:\/\/camilaleporace.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/camilaleporace.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/camilaleporace.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/camilaleporace.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2204"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/camilaleporace.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2204\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2205,"href":"https:\/\/camilaleporace.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2204\/revisions\/2205"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/camilaleporace.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2204"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/camilaleporace.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2204"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/camilaleporace.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2204"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}