{"id":2272,"date":"2022-06-17T22:10:42","date_gmt":"2022-06-17T22:10:42","guid":{"rendered":"http:\/\/camilaleporace.com.br\/?p=2272"},"modified":"2023-02-15T18:59:09","modified_gmt":"2023-02-15T18:59:09","slug":"robos-com-sentimentos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/camilaleporace.com.br\/index.php\/2022\/06\/17\/robos-com-sentimentos\/","title":{"rendered":"Rob\u00f4s com sentimentos?"},"content":{"rendered":"\n<p>Esta semana, a internet chacoalhou com a not\u00edcia de que, segundo um funcion\u00e1rio da Google, o chatbot LaMDA, produzido pela empresa, seria senciente. O funcion\u00e1rio acabou afastado depois de suas declara\u00e7\u00f5es. O interessante \u00e9 que uma discuss\u00e3o que est\u00e1 t\u00e3o presente na filosofia veio \u00e0 tona por conta disso tudo. Ent\u00e3o, o que \u00e9 que est\u00e1 por tr\u00e1s de desse debate?<\/p>\n\n\n\n<p>A ci\u00eancia cognitiva \u00e9 uma \u00e1rea que vem crescendo desde os anos de 1950, e eclodiu bem perto da explos\u00e3o tamb\u00e9m da intelig\u00eancia artificial enquanto \u00e1rea de pesquisa. No in\u00edcio, a IA tinha como foco reproduzir as capacidades humanas. E n\u00e3o era t\u00e3o dif\u00edcil crer na viabilidade disso, porque se acreditava que o c\u00e9rebro poderia ser feito de qualquer material que poderia, de todo jeito, gerar uma mente. Ent\u00e3o, teoricamente, um &#8220;c\u00e9rebro&#8221; de sil\u00edcio tamb\u00e9m seria capaz de dar origem a pensamentos, sentimentos, enfim, tudo que comp\u00f5e a mente.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o passar do tempo, as experi\u00eancias em IA e rob\u00f3tica mostraram que a coisa n\u00e3o era bem assim. Um pesquisador que ajudou a mostrar que a dist\u00e2ncia entre humanos e m\u00e1quinas era grande, e que ainda haveria um longo caminho pela frente at\u00e9 que se pudesse instanciar a intelig\u00eancia humana em sistemas artificiais, foi <a href=\"https:\/\/camilaleporace.com.br\/index.php\/2021\/11\/23\/what-computers-cant-do\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Hubert Dreyfus. (opens in a new tab)\">Hubert Dreyfus.<\/a> Ele trabalhou no MIT bem pr\u00f3ximo a cientistas da computa\u00e7\u00e3o engajados nessas pesquisas. E era ele quem colocava quest\u00f5es que certamente irritavam os programadores, mas que eram certeiras! <\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo: como um computador poderia prever as milhares de coisas que poderiam acontecer em dada situa\u00e7\u00e3o da vida cotidiana? N\u00f3s conseguimos rapidamente mudar a nossa maneira de agir dependendo do contexto em que nos encontramos: se algo cai no ch\u00e3o, pegamos de volta, colocamos em cima da mesa; se algo se parte, colamos; se algu\u00e9m se machuca ou chora de repente, vamos acudir. J\u00e1 sistemas artificiais precisam de mudan\u00e7as extensas e detalhadas em todo o seu c\u00f3digo quando algo muda. Eles n\u00e3o compreendem contextos. Tamb\u00e9m n\u00e3o compreendem certos atributos simples da vida cotidiana, que fazem parte do senso comum. Tipo: quando atendemos ao telefone, dizemos al\u00f4 \u2013 ou \u201ct\u00f4\u201d, se for em Portugal; a pessoa do outro lado responde; combina-se de sair para um bar em alguma rua perto da casa dessas pessoas. O computador precisa de mais do que um simples \u201cEnt\u00e3o, vamos l\u00e1 hoje?\u201d\u00ad para \u201centender\u201d o que se passa. <\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 que na verdade a m\u00e1quina n\u00e3o &#8220;entende&#8221;nada, de fato! Todas as informa\u00e7\u00f5es que as pessoas envolvidas na conversa v\u00e3o conhecendo ao longo da vida e v\u00e3o incorporando em seu repert\u00f3rio \u2013 o que significa al\u00f4, o que \u00e9 um bar, onde ele fica, de que bar est\u00e3o falando, o que significa <em>vamos l\u00e1<\/em> etc. etc. \u00ad\u2013 o computador precisa receber como <em>inputs<\/em> (at\u00e9 mesmo a informa\u00e7\u00e3o de que duas pessoas s\u00e3o pessoas, conversam ao telefone, o que \u00e9 telefone, o que \u00e9 conversar etc. etc., j\u00e1 pensou?!). Isso precisa estar na programa\u00e7\u00e3o do sistema. E, mesmo assim, o computador efetivamente n\u00e3o saber\u00e1 nada: ele vai manipular aquelas informa\u00e7\u00f5es, mas elas n\u00e3o v\u00e3o significar nada para ele.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">E a filosofia no meio de tudo isso?<\/h3>\n\n\n\n<p>A filosofia \u00e9 uma \u00e1rea que investiga a intelig\u00eancia humana, a cogni\u00e7\u00e3o, a mente, a consci\u00eancia. Para isso procura, antes de tudo, entender como se pode compreender ou conceituar cada uma delas. A maneira como se conceitua algo, afinal, faz muita diferen\u00e7a para os debates. Para pensar se uma IA pode ser consciente ou n\u00e3o, se \u00e9 senciente ou n\u00e3o, cabe perguntar: o que \u00e9 ter consci\u00eancia? O que \u00e9 senci\u00eancia? <\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 pesquisadores, por exemplo, que buscam na biologia as ra\u00edzes para se compreender a mente humana. Para eles, a mente \u00e9 como uma extens\u00e3o da vida; onde h\u00e1 vida h\u00e1 atividade mental. Consequentemente, onde n\u00e3o h\u00e1 vida n\u00e3o h\u00e1 mente. &nbsp;Tamb\u00e9m, se n\u00e3o h\u00e1 mente, n\u00e3o h\u00e1 sentimentos ou experi\u00eancia. Por essa l\u00f3gica, se rob\u00f4s n\u00e3o s\u00e3o seres com vida biol\u00f3gica, n\u00e3o poderiam ter consci\u00eancia ou senci\u00eancia, nem sentir ou experimentar nada. <\/p>\n\n\n\n<p>Esses pesquisadores acreditam, ainda, que a mente humana inclui muito mais do que o c\u00e9rebro: o corpo como um todo constitui a mente. E \u00e9 com a nossa atividade corporal, em acoplamento direto com o mundo natural, que vamos descobrindo e entendendo o que h\u00e1 no ambiente que nos cerca: assim \u00e9 que fazemos sentido daquilo que est\u00e1 a nossa volta. Esses pesquisadores a que me refiro s\u00e3o estudiosos da cogni\u00e7\u00e3o enativa. Alguns dos nomes mais importantes da \u00e1rea s\u00e3o Ezequiel Di Paolo, Hanne De Jaegher e Evan Thompson. Na minha tese de doutorado, eu abordo <em>machine learning <\/em>e enativismo. Se quiser saber mais,<strong><a href=\"https:\/\/camilaleporace.com.br\/index.php\/pesquisa-de-doutorado\/\"> clica aqui<\/a><\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Veja tamb\u00e9m o post especial no Instagram: @algoritmosfera<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta semana, a internet chacoalhou com a not\u00edcia de que, segundo um funcion\u00e1rio da Google, o chatbot LaMDA, produzido pela empresa, seria senciente. 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