{"id":3122,"date":"2025-07-27T16:41:40","date_gmt":"2025-07-27T16:41:40","guid":{"rendered":"https:\/\/camilaleporace.com.br\/?p=3122"},"modified":"2025-07-27T16:42:57","modified_gmt":"2025-07-27T16:42:57","slug":"relacionamentos-com-chatbots","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/camilaleporace.com.br\/index.php\/2025\/07\/27\/relacionamentos-com-chatbots\/","title":{"rendered":"&#8216;Relacionamentos&#8217; com chatbots?"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Mark Zuckerberg<\/strong>, CEO da&nbsp;<strong>Meta (META)<\/strong>, tem feito declara\u00e7\u00f5es em que insinua que o futuro das intera\u00e7\u00f5es humanas ser\u00e1 moldado pela&nbsp;<strong>intelig\u00eancia artificial<\/strong>. Para ele, as pessoas ter\u00e3o amigos na forma de chatbots, que tamb\u00e9m far\u00e3o o papel de <strong>terapeutas. Ele diz que isso se torna realidade na medida em que <\/strong>\u201ca IA come\u00e7ar a conhecer voc\u00ea mais e mais\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Dei algumas declara\u00e7\u00f5es sobre o assunto para uma mat\u00e9ria que saiu na Gama Revista &#8211; <a href=\"https:\/\/gamarevista.uol.com.br\/semana\/como-anda-sua-bateria-social\/sua-melhor\/\">leia aqui.<\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Zuckerberg: Rob\u00f4s de IA contra a epidemia de solid\u00e3o [legendado pt_BR]\" width=\"690\" height=\"388\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/VamVUtuW2NA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>H\u00e1 tantos problemas na fala dele. Vou tentar explicar alguns sob o ponto de vista da pesquisa em cogni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Mas, afinal, o que o Sr. Meta sabe sobre conex\u00f5es reais?<\/h2>\n\n\n\n<p>Um modelo de IA n\u00e3o realmente \u201c<strong>conhece\u201d <\/strong>ningu\u00e9m. Conhecemo-nos uns aos outros por meio de nossas intera\u00e7\u00f5es sociais (reais!), que s\u00e3o constru\u00eddas a partir da empatia, de ajustes finos cont\u00ednuos entre os indiv\u00edduos, de di\u00e1logos em que se molda ao outro, e s\u00f3 se pode conhecer o outro quando se \u00e9 capaz de perceber a si mesmo. A IA n\u00e3o tem essa capacidade de percep\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pode realmente perceber o outro e criar uma real conex\u00e3o com ele. O que ela pode fazer \u00e9 coletar dados dos usu\u00e1rios e com isso parecer que os conhece. Hoje, ela coleta dados de todos os usu\u00e1rios, e por meio de estat\u00edstica oferece conte\u00fado para quem tenta conversar, e por mais que a pessoa se sinta contemplada em suas quest\u00f5es pessoais aquilo \u00e9 apenas um resultado estat\u00edstico das quest\u00f5es pessoais de muitas pessoas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Redes sociais nada sociais&#8230;<\/h2>\n\n\n\n<p>Outro ponto essencial \u00e9 o seguinte: as redes sociais tornaram-se antissociais. As pessoas t\u00eam centenas de amigos, entre muitas aspas, no Facebook; afinal, desses, quem s\u00e3o verdadeiros amigos, que aparecem quando precisamos deles? Provavelmente o Sr. Meta sabe que temos na verdade cerca de dois, tr\u00eas amigos, que \u00e9 o que ele cita na entrevista, complementando que as pessoas querem ter mais amigos, mas, ent\u00e3o ele sabe que a rede social que ele criou \u00e9 na verdade antissocial? Porque ele sabe que ali n\u00e3o h\u00e1 la\u00e7os reais, mas se s\u00e3o centenas de amigos, como n\u00e3o se pode contar com mais de dois? E por que as pessoas querem ent\u00e3o mais amigos? E s\u00e3o os chatbots que v\u00e3o fazer esse papel?<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Plataformas<\/h2>\n\n\n\n<p>E quando ele fala que as pessoas se sentem sozinhas, e que as conex\u00f5es reais fazem falta, ele n\u00e3o pontua em nenhum momento, n\u00e3o reconhece em nenhum momento que ele faz parte da cria\u00e7\u00e3o de um universo, que chamei no meu livro de \u201calgoritmosfera\u201d, que \u00e9 um universo que contribui para esse isolamento.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Rolar o feed \u00e9 uma eterna disputa pela nossa aten\u00e7\u00e3o que tira a nossa aten\u00e7\u00e3o a n\u00f3s mesmos. Estamos desconectados de n\u00f3s mesmos.<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Mas <strong>seria poss\u00edvel e seria inteligente resolver esse problema da desconex\u00e3o real, na era das hiper conex\u00f5es digitais, com IA? Esta \u00e9 uma boa quest\u00e3o<\/strong>. Com base na minha pesquisa, sobre cogni\u00e7\u00e3o e IA, em que me aprofundei bastante na quest\u00e3o daquilo que \u00e9 uma intera\u00e7\u00e3o real \u2013 o que caracteriza uma intera\u00e7\u00e3o social? O que a diferencia de uma intera\u00e7\u00e3o com rob\u00f4s? &#8211; Posso dizer que somos seres sociais por natureza, desde antes de nascermos, e nossa cogni\u00e7\u00e3o em pleno funcionamento simplesmente n\u00e3o existe sem a sua dimens\u00e3o social. Ent\u00e3o, se o celular \u00e9 parte da mente e todos sentem quando est\u00e3o longe dele<strong>, o outro tamb\u00e9m \u00e9 parte constitutiva de n\u00f3s, e se o outro est\u00e1 ausente \u00e9 uma parte de n\u00f3s que n\u00e3o est\u00e1 presente, de certo modo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>(Des)conex\u00e3o<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Mas tamb\u00e9m \u00e9 importante lembrar do que a Sherry Turkle coloca; ela \u00e9 psic\u00f3loga, trabalha no MIT, fundadora da Iniciativa do MIT sobre Tecnologia e Self, que \u00e9 o seguinte: <strong>conectar-se consigo mesmo \u00e9 uma camada essencial para conseguir conectar-se com o outro.<\/strong> E as distra\u00e7\u00f5es programadas que encontramos online, especialmente nas plataformas de redes sociais, s\u00e3o elementos dentre aqueles que mais desviam as pessoas da capacidade de se conectarem consigo mesmas. Nessas plataformas, a cada segundo se dirige a aten\u00e7\u00e3o do usu\u00e1rio para outra coisa, j\u00e1 que elas s\u00e3o uma arena de disputa por essa aten\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 a chamada economia da aten\u00e7\u00e3o; mas as pessoas ficam na verdade sem aten\u00e7\u00e3o nenhuma, pois cada hora \u00e9 um conte\u00fado chamando, \u00e9 uma interrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>As mensagens, o eterno rolar do feed, prendem as pessoas \u2013 porque s\u00e3o feitos para isso mesmo \u2013 e, enquanto est\u00e3o ali, \u00e1vidas pela pr\u00f3xima dose de dopamina, elas ficam adormecidas, entorpecidas por aquele processo. A aten\u00e7\u00e3o na verdade se esvai. E com isso as pessoas desaprendem a viver sem essas eternas iscas da sua aten\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o sabem mais viver no t\u00e9dio \u2013 que faz parte, ou deveria fazer parte, das nossas vidas. No t\u00e9dio florescem momentos que levam ao autoconhecimento, \u00e0 conex\u00e3o consigo mesmo, e no t\u00e9dio se constr\u00f3i a no\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m de que, por mais que sejamos seres sociais, somos tamb\u00e9m seres individuados, seres que t\u00eam a sua identidade, e assim temos a capacidade de perceber que sermos seres sociais n\u00e3o significa que tenhamos que ter companhia de outros o tempo todo, e nem divers\u00e3o e distra\u00e7\u00f5es o tempo todo.&nbsp; A capacidade de compreender a si mesmo \u00e9 o que leva cada um a ter um prop\u00f3sito, a conseguir tra\u00e7ar um caminho para si, enxergar um futuro a partir do tempo presente, e quem tem isso se motiva, se mant\u00e9m motivado, e pode evitar o caminho da depress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, \u00e9 claro que a conex\u00e3o com outros tamb\u00e9m apoia esse processo, mas, antes de tudo, as redes ditas sociais online desconectam as pessoas de pr\u00f3prias, elas perdem a aten\u00e7\u00e3o em si mesmas, e sua identidade passa a ser moldada de uma maneira muito dura por algo que n\u00e3o \u00e9 humano e que est\u00e1 ali, em volta delas, dizendo o que devem sentir, se s\u00e3o feias ou bonitas, se est\u00e3o \u00e0 altura de algo ou de algu\u00e9m, o que elas devem acreditar que \u00e9 sucesso, tudo que as distancia de realmente compreenderem o que pode ser bom ou mau para elas mesmas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O primeiro chatbot<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Outro ponto interessante \u00e9: Zuckerberg pontua que o campo da terapia com agentes de IA \u00e9 muito novo, n\u00e3o sei o que ele quer dizer com isso, se o primeiro chatbot de que se tem not\u00edcia era uma terapeuta entre muitas aspas e se chamava ELIZA. Claro, ele est\u00e1 se referindo ao campo os chatbots com IA generativa, isso pode ser novo. Ele quer dizer que a tecnologia ainda pode avan\u00e7ar tanto, que n\u00e3o podemos dizer que esses terapeutas virtuais n\u00e3o v\u00e3o evoluir tanto a ponto de n\u00e3o serem realmente bons.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mas, diante desse cen\u00e1rio de aparentes incertezas, temos uma certeza: a empatia est\u00e1 ligada ao fato de sermos seres vivos; somos parte da natureza, somos animais, temos a vida e estamos conectados uns aos outros porque temos vida<\/strong>. Tal qual uma c\u00e9lula, at\u00e9 por temos trilh\u00f5es delas em nosso corpo, vivemos em trocas de energia constantes com o nosso meio, e s\u00e3o essa trocas que nos permitem um equil\u00edbrio. <strong>Como podemos viver em equil\u00edbrio com um meio que \u00e9 hostil a n\u00f3s? Se torna hostil quando n\u00e3o h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria da tecnologia, dos chatbots de nos manter informados acerca daquilo que acontece com as intera\u00e7\u00f5es que temos com esses sistemas,<\/strong> os nossos dados coletados, n\u00f3s n\u00e3o sabemos o que acontece; hostil tamb\u00e9m porque h\u00e1 a sugest\u00e3o de que devemos resolver os nossos problemas de desconex\u00e3o \u2013 causados at\u00e9 certo grau pela tecnologia \u2013 com a pr\u00f3pria tecnologia que os criou ou que alimenta esses problemas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tem sentido pensar que a tecnologia, na medida em que evolui, vai ser capaz de conex\u00e3o, se conex\u00e3o \u00e9 empatia&nbsp; e \u00e9 sociabilidade e isso s\u00f3 tem realmente entre seres vivos. \u00c9 tamb\u00e9m sem sentido falar em substitui\u00e7\u00e3o disso. Ali\u00e1s, o Sr. Meta fala que n\u00e3o se trata de substituir, que a conex\u00e3o real e f\u00edsica \u00e9 melhor, mas ent\u00e3o por que depois ele diz que a IA ainda vai evoluir muito? Est\u00e1 impl\u00edcita no discurso ele a inten\u00e7\u00e3o de evolui-la ate o ponto em que possa sim substituir as rela\u00e7\u00f5es humanas, ate porque n\u00e3o h\u00e1 transpar\u00eancia, ent\u00e3o pode ser que num dado momento uma pessoa n\u00e3o saiba se interage com um terapeuta humano ou com uma IA. Isso em certa medida j\u00e1 acontece.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O poder humano na algoritmosfera<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Esse \u00e9 o mundo constru\u00eddo por empresas que produzem tecnologia sem se preocupar com o humano e com a natureza. Como somos n\u00f3s que alimentamos as m\u00e1quinas desse mundo com nossos dados, temos tamb\u00e9m o poder de desativ\u00e1-las. Mas precisamos, para isso, voltar a acreditar na nossa capacidade de viver bem sem ter uma mensagem pulando a cada minuto. Sem necessariamente ter companhia para tudo, at\u00e9 numa fila (\u201ccompanhia\u201d= celular na m\u00e3o rolando o feed&#8230;).<\/p>\n\n\n\n<p>A contempla\u00e7\u00e3o, o t\u00e9dio, a vida real, a conex\u00e3o consigo mesmo, podem n\u00e3o parecer, porque n\u00e3o s\u00e3o imediatos, mas s\u00e3o os caminhos para uma vida social que come\u00e7a consigo mesmo e que \u00e9 muito frut\u00edfera. Se ela n\u00e3o garante que n\u00e3o se tenha depress\u00e3o ou outros problemas psicol\u00f3gicos \u2013 claro, poque h\u00e1 v\u00e1rios fatores que os geram \u2013 ao menos conectar-se consigo mesmo nos devolve \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de aut\u00f4nomos, de seres capazes de liderar suas escolhas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E afinal talvez o Sr. Meta saiba, sim, algo sobre conex\u00f5es reais. Afinal, enquanto tanta gente opta pela superexposi\u00e7\u00e3o nas redes sociais, quando \u00e9 o Sr. Zuck a postar fotos das filhas no Instagram, ele protege os rostos das crian\u00e7as. Isso talvez nos diga algo sobre como devemos reconsiderar as nossas demonstra\u00e7\u00f5es de afeto nas redes sociais. Afinal, superexposi\u00e7\u00e3o, cuidado e conex\u00e3o real n\u00e3o combinam muito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mark Zuckerberg, CEO da&nbsp;Meta (META), tem feito declara\u00e7\u00f5es em que insinua que o futuro das intera\u00e7\u00f5es humanas ser\u00e1 moldado pela&nbsp;intelig\u00eancia artificial. 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