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A Mente Humana para Além do Cérebro

LEPORACE, C. P.; BANNELL, R. I. (Org.) ; RODRIGUES, E. M. S. (Org.) ; SANTOS, E. J. R. (Org.) . A Mente Humana para Além do Cérebro – Perspectivas a Partir dos 4Es da Cognição. 1. ed. Coimbra: Universidade de Coimbra, 2019. v. 1. 174p .

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Perspectivas a partir dos 4 Es da Cognição

A seguir, leia a introdução:

Se você já parou para pensar em como a mente humana funciona, ou até mesmo refletiu sobre o que é a mente humana, já deve tê-la associado a sua cabeça. A mente está no cérebro. Certo? Não para os pesquisadores dos chamados 4Es da cognição. Esses especialistas, a partir do desenvolvimento de abordagens teóricas em paralelo a observações e análises empíricas realizadas junto a neurocientistas e cientistas da computação, entre outros, têm nos conduzido a pensar em como a mente extrapola os limites do cérebro; para compreendê-la, não basta sabermos quais os neurônios que são ativados em cada caso cognitivo, por exemplo. Aliás, como é que a ativação de um neurônio dá origem a um estado mental? Se conseguirmos mapear os neurônios responsáveis pelo amor, por exemplo, os testes dessa natureza (os mapeamentos cerebrais) conseguiriam revelar quem é o objeto desse amor? Provavelmente, não. Trata-se do caráter subjetivo da mente humana. Tudo o que pensamos está guardado lá. Mas o que é esse “lá”?

Para um grupo crescente de filósofos da ciência cognitiva, no qual focamos neste nosso trabalho, a mente emerge a partir do cérebro, do corpo e do ambiente. Trata-se de um amálgama, de um conjunto de elementos capazes de originar nossos estados mentais. As emoções surgem unidas a esses processos, já que separar ação e emoção seria um erro, como, apropriadamente, postula o neurocientista António Damásio.  De acordo com a perspectiva da mente situada, a cognição humana precisa apoiar-se no ambiente. Teses mais fortes, no entanto, iriam além e diriam que o ambiente é mais do que um apoio, sendo constitutivo da mente humana – e, consequentemente, parte integrante dos nossos processos cognitivos. A mente corporificada ressalta a importância do corpo, do organismo como um todo para a cognição; pode ser considerado apenas um apoio, segundo as teses mais fracas, ou um elemento constitutivo da mente humana, segundo as teses mais fortes. Segundo a abordagem da mente estendida, os processos cognitivos estendem-se para além do cérebro e do organismo humano: extrapolando esses limites, incluem o ambiente e até mesmo as tecnologias como partes constitutivas da cognição humana – ao menos em determinados momentos e para a realização de certas ações específicas. Já a mente enativa focaliza o movimento do corpo no mundo como aspecto essencial para a cognição; sejam os movimentos perceptíveis a nós, sejam aqueles que acontecem no nível subconsciente.

A mente humana tem sido alvo de estudo ao longo de muitos séculos. Essas quatro perspectivas têm em comum o fato de buscarem a compreensão da atividade mental para além do cérebro, já que se trata de abordagens que não se satisfazem com as explicações para a cognição humana que se limitam a aquilo que se encontra nesse órgão. Segundo os pesquisadores dedicados ao desenvolvimento de teses relacionadas a essas perspectivas, são diversos os elementos que, analisados de forma conjunta, podem revelar como e onde a mente emerge e de onde vêm os nossos processos mentais.

Mas, de onde se origina essa inquietação? Qual é a importância de se analisar a origem, a natureza e as relações entre processos mentais e o corpo, o ambiente e as tecnologias criadas por seres humanos – elementos que, acreditamos, constituem-se mutuamente? Nós, enquanto pesquisadores e também enquanto seres cognoscentes inquietos em nossa curiosidade acerca de como funcionamos, observamos diversas implicações para isso – o que nos estimula a mergulhar nas pesquisas dos enativistas, escutar o que dizem os defensores da mente estendida, procurar compreender as origens das teses situacionais e desvendar as maneiras como o organismo, de forma integral, participa da cognição humana.

É desse aporte teórico que parte o nosso grupo, intitulado E-Minds Lab e relacionado ao Instituto de Psicologia Cognitiva e Desenvolvimento Social da Universidade de Coimbra. Com entusiasmo, admitimos que há muito trabalho teórico a se desenvolver acerca de tais teses, argumentos a serem lapidados e compreendidos, diversas abordagens para serem postas em diálogo e, principalmente, muitas questões ainda a serem levantadas. Porém, para além das emergentes abordagens teóricas, nossa proposta de trabalho vem sendo também a de compreender de que forma tais teses podem nos ajudar a colocar novas lentes e perceber de outras formas as nossas próprias áreas de atuação, como a psicologia, a educação, a comunicação e, como uma espécie de espinha dorsal que tudo perpassa, a relação humana com as tecnologias, especialmente as digitais.

O nosso desejo com este livro é estender nossas mentes para além do E-Minds Lab enquanto grupo de trabalho. É expandir nossa cognição, já compartilhada entre nós e também com os parceiros que junto conosco trabalharam para tornar esta publicação possível, para outros espaços, outras ideias e análises. Quem sabe, apresentar algumas questões do campo para quem ainda não teve contato com tais perspectivas. Em nossas análises, aceitamos o desafio de articular conceitos tão recentes e que, de certa maneira, invertem muitas das crenças e lógicas que cultivamos desde a modernidade. Para mencionar somente a filosofia, herdamos de Descartes e Kant, há quatro séculos, muitos dos conceitos que estão enraizados em nós e que foram, sem dúvida, essenciais e disruptivos ao emergir. Mas, o que emerge agora? Onde estão nossas mentes? Como podemos compreendê-las e o que esta jornada, assim como as próprias descobertas em si, podem nos proporcionar?

Acreditamos que temos muito o que aprender com as ideias relativas às abordagens corporificada, situada, estendida e enativa, por acreditarmos que há tanto a se conhecer nessa arena mente-corpo-sensório-ambiental-temporal que habitamos em constante fluidez e expansão contínua; nestas páginas, procuramos explorar algumas dessas perspectivas, numa tentativa de abrir frestas para que novas luzes consigam chegar. O leitor será desafiado a pensar o corpo que habita e também o corpo do outro, no diálogo entre os quais a mente se molda. As inteligências artificiais, ora cartesianas, se possíveis; ora expandidas, estendidas, enativas, se ficcionais, quiçá desejáveis, nos conduzem a pensar entre dois extremos. E as metáforas que marcam a ciência cognitiva podem dizer do que não somos talvez mais do que daquilo que de fato somos, a não ser que se traduzam enativas, despojando-se do espaço circunscrito ao crânio para elasticizar-se rumo a novos e inexplorados limites. Vamos refletir sobre o nosso aprendizado diante desses pressupostos alargados, frente a esses espaços físicos e sociais estendidos onde ativamente percebemos e nos desenvolvemos. A forma como obtemos linguagem e o seu próprio papel na cognição humana talvez possam ser postos em nova perspectiva diante dos 4Es. E, ciborgues que somos, como podemos aplicar nossas percepções estendidas, enativas, situadas e corporificadas às tecnologias que visam ampliar a cognição de pessoas com deficiências como a visual? A partir de tais temáticas, esperamos contribuir de alguma forma com o debate, lançando olhares que colaborem, de algum modo, com pesquisas de variadas naturezas.