MESA ACONTECE DIA 25 DE AGOSTO DE 2026 NO MUSEU DO AMANHÃ, RIO DE JANEIRO
A transformação digital reconfigurou radicalmente a esfera pública. Plataformas, algoritmos e sistemas de recomendação passaram a mediar o acesso à informação, alterando as dinâmicas de formação da opinião pública. Esta mesa investiga como a desinformação, a fragmentação da realidade compartilhada e a governança algorítmica impactam a experiência democrática.
Participam Camila Leporace, Catharina Doria e David Alfredo discutindo os efeitos políticos da crise da verdade e os desafios regulatórios e culturais da tecnologia, com mediação de Isabela Reis.
Sobre Brasil do Amanhã: Em um cenário global marcado pela reconfiguração das alianças internacionais, pela radicalização política, pela transformação tecnológica da esfera pública e pela crescente fragilidade das instituições, a democracia atravessa um momento de inflexão histórica.
O ciclo curatorial Sustentabilidade é Convivência convoca a frente de debates Brasil do Amanhã com um diagnóstico aprofundado das múltiplas dimensões da crise contemporânea que ameaçam a democracia como conhecemos. Ao longo de quatro mesas temáticas, o programa examina a democracia sob quatro perspectivas complementares: a ordem global, a crise da verdade, a soberania territorial e a disputa cultural da memória.
Reunindo pesquisadores, intelectuais, jornalistas e agentes culturais, o evento busca compreender não apenas os riscos que cercam o regime democrático, mas também os campos onde ele é permanentemente reconstruído e tensionado.
Essa sua dúvida é porque você está incomodado ou incomodada com as últimas notícias. Suspensão das regulações? Redes sociais desgovernadas? As coisas não estão fáceis naquela que nomeei algoritmosfera – o grande espaço algorítmico no qual todos nós estamos inseridos (que dá nome ao meu livro, veja aqui).
Estar preocupado é um bom começo. Mas a má notícia é que, independente da decisão que você tomar, sair de uma rede social não vai fazer cessar o imenso problema que temos nas mãos. Sair de uma rede social vai ter um efeito semelhante a quando “bloqueamos” uma pessoa com quem não queremos mais falar. Brincadeiras à parte, o assunto é sério. Como eu pontuei em meu talk no TEDx, cada um precisa se envolver nessa discussão, cujo tópico principal é: como podemos ter uma internet melhor? Como as plataformas algorítmicas que formam a Web que temos hoje podem jogar a nosso favor, não contra nós?
Para isso, é fundamental ter consciência daquilo que está por trás da nossa grande rede, hoje. Uma pequena quantidade de empresas detêm os nossos dados e produzem os mecanismos que nos mantêm atrelados a esse incessante processo de fornecer dados. Fazer parte disso não é opcional: você não pode simplesmente se desconectar, deixar de usar a internet, deixar de divulgar suas coisas, fazer suas conexões. Vai deixar de ussar apps de bancos? vai deixar de usar apps para pedir comida e transporte? Vai deixar de usar softwares que já têm IA por trás e você nem sabia?
O que precisamos é de um espaço online mais saudável. Que esteja a favor do nosso desenvolvimento individual e enquanto sociedade. Não é sair dele, é lutar para que seja melhor. E claro, fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para ter uma melhor relação com a algoritmosfera. Isso inclui menos tempo de tela e menos tempo de redes, sim. Desintoxicar é preeciso. Mais natureza. Mais afeto e humanidade.
Mas tudo isso tendo a cosciência de que a IA, que entre outras tecnologias está por trás dos mecanismos da nossa internet, não é apenas uma ferramenta que usamos quando queremos e deixamos de lado quando acabamos de usar. Também não é uma ferramenta que veio para consertar alguma coisa que quebrou ou estava ruim. Não. A IA é um instrumento político, social e econômico, cujo alcance e cujas consequências possíveis ainda não estão 100% claros. Informar-se e estar aberto a rever concepções, e principalmente não fazer certas concessões é importante. Que concessões não se pode fazer? Abrir mão dos seus direitos, e dos direitos das nossas crianças. Liberdade não é liberdade quando impede o outro de ter a dele. É isso que está em jogo.
Deixo meu TEDx abaixo para quem quiser ver ou rever 😉
A comunicação de ciência só consegue avançar se associada ao letramento digital, especificamente o letramento em Inteligência Artificial. Por quê?
Porque comunicar ciência para a sociedade é informar, e as plataformas digitais algorítmicas contribuem muito para desinformar.
A realidade mostra-se diferente para cada indivíduo no ambiente digital. Os algoritmos moldam o conteúdo que vemos. As campanhas de desinformação muitas vezes têm como alvo usuários específicos, que podem ser mais vulneráveis. Como os usuários raramente estão cientes de como os sistemas digitais atuais funcionam, pensam que o que veem on-line é visto por outros usuários, universalmente. Uma grande distorção que abre espaço para a criação de realidades paralelas.
O microdirecionamento e a impressão digital de navegação, técnicas eficazes para direcionar a publicidade a consumidores específicos, são também úteis para a disseminação da desinformação. Embora a desinformação seja um problema antigo, as técnicas de IA abrem novas possibilidades para manipular indivíduos de forma eficaz e em escala, levantando várias preocupações éticas.
A autonomia dos usuários é ameaçada, pois eles não podem tomar decisões livremente no ambiente on-line, sem serem manipulados. Quando os algoritmos usam dados pessoais para “decidir” o que os usuários veem ou não, fechando muros em torno deles, isso é uma ameaça à privacidade e ao livre arbítrio (falo muito dessa ameaça à autonomia em meu livro, “Algoritmosfera” – expressão cunhada por mim na minha tese de doutorado).
Ameaças à autonomia dos usuários também significam ameaças à democracia. As câmaras de eco/echo chambers são ambientes nos quais os indivíduos encontram apenas crenças ou opiniões que coincidem com as suas. Nesse estado de “isolamento intelectual”, não há lugar para opiniões diversas ou diálogo. As mesmas opiniões, hábitos e pontos de vista são reforçados, reiteradamente.
Por isso são grandes os desafios digitais para a comunicação, especialmente naquela que diz respeito à ciência; e é com letramento digital que se fará melhor difusão científica no Brasil.
Muito se fala sobre qual seria a diferença entre ver uma pessoa “real” e ver uma imagem gerada por IA. Mas o que se poderia dizer da diferença entre curtir uma banda ao vivo e viver a experiência da instalação “The Visitors”, do artista visual-tecnológico Ragnar Kjartansson?
A instalação esteve em cartaz na exposição Não Sofra Mais, no Mosteiro de Santa Clara a Nova em Coimbra e encerrou este fim de semana.
Ela consiste em oito vídeos, cada um dos quais mostrando um músico tocando seu instrumento; os músicos estão em cômodos diferentes; esses cômodos fazem parte de uma mesma casa. Num nono vídeo se pode ver a casa pelo lado de fora uma parte do jardim da casa; na varanda, pessoas cantam.
Os vídeos estão
dispostos numa grande sala, quatro de cada lado e o nono ao fundo. Pode- andar pela
sala e parar para observar cada músico em separado ou simplesmente escolher um
ponto para se posicionar e observar/escutar. Todos os sons são ouvidos juntos,
porque todos os músicos que estão nos vídeos estão tocando a mesma música. Por
que então isso é fascinante? Não é a mesma experiência que ouvir uma banda ao
vivo?
O que Ragnar
conseguir fazer, na minha percepção, foi mostrar do que nossos corpos são
capazes quando ouvimos música. A música mexe com a gente e ali, literalmente,
diante daquela instalação, todos se mexeram. Caminharam, andaram, pararam, se emocionaram,
dançaram e, ao final, quando os músicos se encontraram numa só cena, num só vídeo,
no mesmo cômodo, a plateia se acomodou juntinha, todo mundo em frente ao mesmo
vídeo. Depois, quando os músicos saíram daquele vídeo para aparecer no nono vídeo,
do lado de fora da casa, as pessoas literalmente andaram pela sala “seguindo”
os músicos. Nesse momento, alguns espectadores já estavam cantando as músicas que
eles cantam nos vídeos.
As pessoas
andaram juntas depois de observar minutos a fio as cenas, cada uma olhando par aqueles
detalhes que mais lhes interessavam.
Num concerto
ou show, a plateia tende a ter movimentos limitados tanto pelo espaço quanto
pelas circunstâncias; isso faz parte do ritual tradicional de ouvir e assistir ao
espetáculo. Ragnar, em contraste, colocou a plateia para se movimentar. Os músicos,
claro, se mexem também e enquanto tocam é possível perceber como tocar um instrumento
envolve movimentos corporais completos. Um deles prefere até tocar dentro de
uma banheira, por vezes apoiando o violão num suporte de madeira.
Mas, entre
diversas sensações despertadas, o que senti de mais diferente e especial – além
da beleza dos vídeos e da ideia da instalação, muito bem construída – foi isso:
o fato de essa obra de arte promover o movimento do público por entre os músicos/os
vídeos. As pessoas acabam caminhando por entre os outros ouvintes/espectadores,
e então percebemos que não somos espectadores, mas parte de todo o contexto. A
cena ganha vida justamente quando quem a assiste se movimenta e acompanha, com
todo o corpo, o que acontece com os músicos em seus vídeos.
Assim como
eles estão, cada um, em seu cômodo tocando seus instrumentos, nós estamos
vivendo as nossas vidas individualmente. Mas somos seres individuais-coletivos.
Não existimos sem coexistir, mas só podemos coexistir se existirmos
individualmente.
A instalação,
assim, nos faz lembrar a própria vida; somos transeuntes a cuidar de nossos
cantinhos e caminhos, mas cruzamos o caminho uns dos outros e assim afetamo-nos
mutuamente. Somos o caminho uns dos outros. Cada um toca uma parte da música,
ou contribui com um instrumento, uma nota, uma dimensão. Mas, no fim, somos
parte da mesma sinfonia, todos em sintonia, mesmo que às vezes, isolados em nossos
cantos ou cômodos de “casa”, não nos demos conta.
Comercial da Volkswagen levanta questões filosóficas (quer queira, quer não…)
A primeira coisa que pensei quando vi o comercial da Volkswagen com a Elis e a Maria Rita foi: bom, a Maria Rita aprovou isso ; se ela aprovou, será que gostou do resultado? Fui procurar saber e sim, ela gostou, acha até que “realizou um sonho”.
O fato de ela ter gostado é, para mim, um dos sinais importantes a serem observados quando se trata de analisar a IA nas nossas vidas. A Elis foi sua mãe. A Maria Rita não poderia se sentir lesada ou triste de novo, já perdeu a mãe, ainda que há mais de 40 anos, então esse comercial tinha que ser algo bom para ELA, principalmente.
Respeitar as emoções que a IA origina é, eu defendo, um dos fatores mais relevantes quando se trata de ética na inteligência artificial. Não à toa se estuda até mesmo se as IAs podem “demonstrar” ou ” interpretar” emoções. Elas são importantes nos comerciais, também. E, claro, para os espectadores.
Um caso em que ambas as pessoas há tivessem morrido, e aí fizessem um comercial com elas usando IA, seria mais complicado. Quem poderia dizer se essas pessoas gostaram disso ou o que sentiram?
Aliás, vocês já viram o primeiro episódio da última temporada de Black Mirror na Netflix? Vale assistir. Vários questionamentos que estão lá já batem à nossa porta aqui, na “vida real”. E têm a ver com esse vídeo da Elis e da Rita.
Por que você, pesquisador de mestrado ou de doutorado, deve estar presente nas redes sociais online?
A Web é uma das principais fontes de informação sobre ciência, tecnologia e saúde para o público não especializado. Também a Web é a principal fonte de *desinformação* sobre essas matérias.
Essa, em si, já é uma razão importante para os academicos fazerem parte do ecossistema de comunicação sobre ciência que a internet é capaz de proporcionar.
É importante, ainda, estar presente para:
– Fazer networking – Conhecer outras temáticas e áreas de pesquisa – Perceber onde estão os medos e receios do grande público – Perceber como aproximar a sua investigação do cotidiano das pessoas – Ganhar visibilidade com o seu trabalho
Para começar a estar mais presente digitalmente, três dicas que podem ser úteis:
1. Trace metas factíveis: metas complicadas demais acabam frustrando em vez de estimular – exemplo: um post por semana é muito melhor do que nenhum, mas postar todo dia pode ser uma meta difícil de alcançar num primeiro momento;
2. Planeje o dia da semana em que irá postar e produza seus posts com alguma antecedência (é interessante ter um “banco” de posts para ir usando, em vez de postar tudo de uma vez!);
3. Faça uma nuvem de palavras com os temas da sua pesquisa: ela vai te ajudar a se inspirar quando você precisar produzir um post e estiver sem imaginação.
No dia 3 de maio, estarei em Bragança, para o SciComPt – o Congresso da Rede de Comunicação de Ciência e Tecnologia de Portugal, ministrando a oficina “Usando a web para aumentar o alcance da sua investigação científica”, na programação pré-congresso, pela manhã. Junte-se a nós ou indique a alguém que você acredita que pode se interessar! Inscrições aqui neste link, com taxa reduzida até 17 de abril.
Concluí uma pós-graduação lato sensu (tipo MBA) em Marketing Digital em 2008. À vezes me perguntam se a pós não ficou “datada”, uma vez que os processos relativos ao mundo digital mudam rapidamente. Não, a pós não ficou datada, porque eu aprendi sobre a lógica de muitos processos, e essa lógica está valendo.
Por exemplo, as boas práticas de arquitetura de informação: a gente aprende, observa, põe em prática – como fiz com projetos como o do Acervo O GLOBO (2010 a 2014), a intranet da Oi (2014 a 2016) e venho fazendo mais recentemente com trilhas de aprendizagem online, por exemplo. Os recursos mudam, as ferramentas e plataformas se diversificam, mas os pressupostos se mantêm.
Outro exemplo: a lógica dos links patrocinados/das mídias pagas versus o SEO orgânico; boa parte dessa lógica vem de quando ainda trabalhava com Yahoo!, antes de trabalhar com Google AdSense… e usava Statcounter e não Google Analytics!
O que se preconiza como bons resultados para a navegação de um site pode mudar, de acordo com os KPIs (Key Performance Indicators) estabelecidos para cada projeto/empresa – por exemplo, o tempo que um usuário passa, em média, navegando num site: pode ser desejável que passe horas e horas, se for um site de e-commerce, ou que passe ‘voando’ pelas páginas, se for um site com informações sobre atendimentos médicos urgentes. No segundo caso, o sucesso está em levar informação rápida ao usuário para salvar vidas, enquanto no primeiro a ideia é tornar a experiência agradável, sem pressa e mostrando o máximo de opções possíveis. Aplica-se então o que se sabe sobre as boas práticas a cada caso específico, e avalia-se as métricas para ver se o empenho resultou como desejado. E por aí vai.
A lógica vale para SEO, Arquitetura da Informação, acessibilidade, user experience, CRM, webwriting etc.
Acho importante, porém, o seguinte: a lógica geral da comunicação pode não ter mudado muito, porque os paradigmas sobre os quais a Web se apoia estão mantidos. Mas… agora temos a dimensão do machine learning e do big data. São muitas e profundas camadas de dados que temos que tratar e gerir. Claro, nem todos os sistemas, sites, apps estão neste momento alavancados por #machinelearning. Mas as redes sociais e os sites de busca estão, e isso mexe com os sites e apps que se encontram inseridos nesse contexto maior. Afeta os caminhos que são feitos para se chegar a eles; afinal, os algoritmos “decidem” (com muitas aspas) muita coisa por nós.
Estou fazendo um curso na Universidade de Coimbra sobre comunicação de ciência para audiências não especializadas. Está sendo uma experiência excelente!
Eu acredito que a preocupação com essa comunicação começa no momento em que nós estamos escrevendo as nossas teses, dissertações e os nossos artigos.
Mesmo que nossas teses, dissertações e artigos sejam peças mais “duras”, com uma estrutura mais rígida, e que possivelmente não alcancem um público leigo, podemos escrevê-las e estruturá-las de uma maneira que de fato comunique as nossas descobertas (um bom revisor, aliás, pode ajudar e muito nisso! Recomendo demais o trabalho de meu pai, Sebastiao Jose Leporace Jr). Podemos adotar uma linguagem mais leve, direta e objetiva.
Para nos ajudar a comunicar bem o que estamos fazendo, podemos também participar de eventos que quebram a rotina dos congressos acadêmicos. Aqui em #portugal, onde estou fazendo doutorado sanduíche, vale a pena acompanhar a http://scicom.pt/, por exemplo. E há muitas outras iniciativas, como:
Tive o prazer de participar do XI Curso de Verão promovido pelo INCOg, da PUC-Rio, apresentando ideias da mente estendida. Sempre ficava incomodada com as referências bibliográficas apertadinhas em letras miúdas ao final da apresentação e que não facilitavam em nada para quem quisesse se aprofundar.
Desta vez, resolvi então inovar: fiz um post no meu blog contendo todas as referências, inclusive livros e imagens usados ou mencionados na apresentação, e gerei um QR Code e um link rápido para ele.
Quem não assistiu mas tem interesse, pode dar uma olhadinha se quiser. Aqui está o post.
Fiquei feliz de ter tido essa ideia, achei uma boa solução que pretendo adotar daqui por diante. Ah, e não foi do nada: eu tive essa ideia quando circulei por uma exposição esta semana em que o artista (Jens Müller, que está expondo aqui em Coimbra no Centro Cultural Penedo da Saudade; veja o Insta dele) colocou nas paredes do centro cultural o QR Code levando para o Instagram dele. Nada se cria, tudo se recria, e isso está totalmente alinhado com a tese de Andy Clark. Nossa cognição se forma em camadas, aproveitamos tudo que está no entorno para avançar de “nível” cognitivo.
Precisamos de uma WWW democrática. Uma rede de conexões reais no espaço virtual.
Esta semana, recebi de diversas pessoas o vídeo que alardeia aquilo que na prática todos temos notado: a nossa navegação na Web é completamente rastreada pelo Facebook. Se você acessou um site e viu algo de que gostou mas não se lembra direito qual foi, esqueceu o nome etc, pode usar o histórico do seu navegador para reencontrá-lo ou… pode usar o histórico do Facebook. Vá em Configurações > Sua atividade no Facebook > Atividade fora do Facebook e verá que está tudo lá.
O Facebook está se tornando a própria World Wide Web, que não é mais tão vasta, ampla ou grande no melhor sentido da coisa e, diga-se de passagem, está cada vez mais chata, comercial e robotizada – no sentido literal. O que temos é um território mapeado, em que um chip com nossos logins (na forma de app do Facebook) funciona como uma espécie de arco íris que leva ao tesouro: nossos dados.
O problema nao está só no Facebook. Até porque ele está acompanhado da Amazon, Google, Apple. E alguns podem dar de ombros e dizer que esse rastreamento das lojas e sites que visitamos, em particular, pode nem ser tão preocupante, apenas irritante.
Mas é fato que, pela nossa sanidade, pela longa vida às artes, à filosofia, à política, ao cinema, às reais trocas de ideias, precisamos de uma internet democrática. Uma World Wild Web, isto é, uma Web “selvagem” no bom sentido, ampla de fato, democrática, capaz de se abrir à vastidão da natureza humana, dos nossos desejos e sonhos, ajudando-nos a criar e a fortalecer nossas reais conexões. Para usar esse termo busco como referência o pesquisador Edwin Hutchins, autor de Cognition in the Wild, este livro aqui. A ideia é a de analisar a cognição humana em seu habitat natural, a natureza, a cultura, as relações sociais, em vez de fazer isso apenas em laboratórios/ambientes controlados – o que poderia levar a uma dimensão bem mais fiel dos nossos processos cognitivos.
Penso enquanto escrevo numa Web que reflita as múltiplas realidades que vivemos, que se conecte melhor com o mundo que habitamos e que construimos todos os dias, em vez de apenas tentar construir esse mundo para nós – fazendo-o puramente devotado à venda, um palco em que se discute basicamente o que vale mais e quanto se quer pagar. Um mercado das pulgas em que as pulgas somos nós (isso é pior ainda do que ser as os cacarecos à venda – ou não…). Sim, eu sei que o mundo “real” também o coloca o capital acima de tudo, mas é exatamente por isso que precisamos mudar a Web (e o mundo) antes que o mundo que a Web tenha para refletir seja exatamente esse mundo chato e vazio como ela!
Um exemplo: para um músico “independente” – uma classificação que considero um tanto falha (por vários motivos) mas que apenas quer dizer no senso comum um artista que faz seu próprio percurso sem esperar as grandes gravadoras/o mainstream etc (o que acho louvável) – usar o YouTube para divulgar seu trabalho tornou-se praticamente impossível. Se tem dúvidas, converse com um deles e confira a odisseia que é ter um canal e conseguir alguns míseros seguidores., mesmo que você tenha uma carreira consolidada, muitos fãs, muitos shows no currículo e muitos álbuns lançados. As redes sociais que usamos são mainstream. Elas criam o seu próprio mainstream. O problema é que elas definem as prioridades e descartam o que não é prioridade para elas. Os “grandes” seguem “grandes”, com muitas aspas, e os “pequenos”… os pequenos que lutem.
Esse é só um exemplo. Se você nunca estranhou o alcance ínfimo de uma determinada publicação sua no FB quando esperava muitos likes, é porque provavelmente só posta gatinhos. O FB adora gatinhos. Aliás, aposto que Zucker fez algo de bom, pelo menos, que foi popularizar os gatos e fazer mais pessoas adotá-los, porque agora parece que todos têm gatos. O FB adora gatos porque as pessoas passam HORAS vendo vídeos de gatos.
Voltando à Web democrática: ela era a ideia original de Tim Berners Lee, mas simplesmente não aconteceu. Mas ele não desistiu: Tim tem uma startup chamada Inrupt e está trabalhando por uma nova estrutura de rede, chamada SOLID. A ideia é repensar a maneira como aplicativos armazenam e compartilham dados pessoais. Para isso, em vez de armazenar dados em servidores de uma empresa que se interessa apenas em lucrar a partir deles, os usuários teriam um pequeno servidor exclusivo, localizado no Solid, um servidor grande. O problema dessa história é que ela parece levar ao problema do regresso infinito, isto é, Berners-Lee acabaria por ter os dados de todos armazenados em seu mega servidor com vários mini servidorezinhos; mas ele diz que não, que os dados estariam somente no servidor de cada um. De todo modo, as motivações de Tim me parecem sem dúvida melhores do que as de Zucker e sua turma, que não sabem mais onde colocar seu dinheiro. E continuam querendo faturar mais e mais às custas não apenas da nossa privacidade como do esvaziamento total da graça que a internet um dia teve, quando prometia ser a terra da criatividade que representava uma real alternativa ao caminho até então monótono do broadcasting.
Berners-Lee e o CEO (odeio estas siglas) da empresa dele – que não é ele, mas sim um cara chamado John Bruce – não esperam que o modelo descentralizado que estão tentando materializar desmorone as tech giants num passe de mágica, como bem lembra este artigo aqui da Wired. Até porque Zucker e os amigos não querem largar o osso carnudo dos nossos dados. O que a dupla Berners-Bruce quer é lançar uma alternativa, que possa se popularizar ao menos entre quem está preocupado com tudo isso que estou expondo neste texto e anseie por uma rede mais bacana, mais leve, aberta e criativa. Não sei exatamente como isso vai funcionar, se vai funcionar, mas esse caminho me parece bastante interessante e pretendo acompanhar. Sugiro que façam o mesmo. Até porque o problema não é apenas você gostar de hambúrguer com cheddar, e ficar toda hora aparecendo hambúrguer com cheddar para você nos anúncios na “sua internet”. O problema é que assim você vai viver num mar de hambúrgueres de cheddar com pequenas variações (com ou sem cebola…) em vez de conhecer um mundo que também tem hotdogs, pipocas doces, salsichas alemãs, saladas, pizzas ou seja o que for.
É bom pensar nisso antes que sua pressão arterial saia do controle.