4º CONGRESSO INTERNACIONAL DA SOCIEDADE PORTUGUESA DE FILOSOFIA

Nesta sexta dia 10 vou apresentar ideias relacionadas a minha pesquisa no 4º CONGRESSO INTERNACIONAL DA SOCIEDADE PORTUGUESA DE FILOSOFIA, promovido pela Universidade do Minho. O evento começa na 5a feira, dia 9. O programa completo está neste link.

Doutorado em Filosofia no exterior: como fazer?

Um tema frequente entre estudantes e pesquisadores interessados em fazer mestrado e doutorado é a possibilidade de realizar a pós-graduação no exterior. O que é preciso para fazer um mestrado ou doutorado fora? Quais os fatores que essa decisão envolve? Como planejar esse grande passo? O que fazer primeiro? Como se comportar nas entrevistas? O que escrever no e-mail para aquele pesquisador que tem um trabalho tão interessante? Qual o tom que devo usar? Quanto vou precisar investir? Vou conseguir uma bolsa de estudos?

Para ajudar na busca por respostas a essas questões, especialmente com foco em estudantes interessados nas Humanidades, eu e o Elan Marinho, do Canal Filosofia Acadêmica, entrevistamos o Hugo Mota, mestre em Filosofia pela UFPE. Ele está indo fazer doutorado em Filosofia na Universidade de Oslo. O Hugo foi super bacana, contou tudo tin-tin por tin-tin e deu dicas preciosíssimas. Se você perdeu a live, pode assistir novamente agora, no vídeo a seguir. Além do vídeo, o Hugo preparou um documento super bacana com as dicas por escrito, que está disponível neste link.

Depois de conferir este vídeo, aproveite para assistir a outras lives imperdíveis do Filosofia Acadêmica, mantido pelo Elan.

Imagem do post: Slava @ Unsplash

Informações para estudantes de pós-graduação em Filosofia buscando oportunidades no exterior

Por Hugo Mota

Perguntas preliminares (faça-as e responda a você mesmo):

  • Por que deseja buscar oportunidades fora do país?
  • Pretende se mudar só ou com outra(s) pessoa(s) (parceiro, filhos, pets)?
  • Quais línguas você já domina/pretende estudar?
  • Qual o período/ano que deseja iniciar os estudos?
  • Quais são seus países/continentes de escolha?
  • Quais são suas áreas de interesse/especialização?

A depender das respostas às perguntas acima, diferentes informações/dicas se aplicarão!

Informações gerais:

  • Tenha em mente que, independente da escolha, invariavelmente haverá gastos (mais ou menos dispendiosos, a depender do país):
    1. Passaporte (aproximadamente 250 reais);
    2. Certificado de Proficiência (aproximadamente 1000 reais, no caso da língua inglesa);
    3. Tradução juramentada de documentação (aproximadamente 800 reais);
    4. Taxa de aplicação (varia de 0 a 600 reais);
    5. Taxa do GRE (caso pretenda estudar nos EUA, algumas instituições pedem, valor aproximado de 1000 reais);
    6. Visto (taxas a depender do país);
    7. Passagens de avião (somente ida, de 2000 reais pra cima).
  • Será necessário elaborar alguns documentos para o “pacote de aplicação” (abaixo listo todos que conheço, mas a exigência dependerá do país/universidade ou da vaga):
    1. Writing sample (amostra de trabalho escrito, geralmente um artigo ou trecho de sua monografia/dissertação);
    2. Personal statement/Research statement/Cover letter/Application letter (texto breve, entre 1 a 4 páginas, relatando sobre sobre aspectos de sua carreira, pesquisas, interesses, personalidade e habilidades);
    3. Curriculum Vitae (seu currículo acadêmico/profissional em inglês, o mais completo possível dentro dos limites de cada seleção);
    4. Letters of Recommendation/Reference letters/References (cartas de recomendação ou nomes de pessoas que podem te recomendar à universidade, geralmente 2 ou 3 cartas/pessoas ― ideal solicitá-las cedo, especialmente para professorxs próximos ou (ex)orientadorxs, o melhor é que sejam aquelxs que tenham de fato ajudado você em sua carreira e conheçam seu trabalho);
    5. Research proposal/Project description (proposta de pesquisa ou descrição breve do projeto que você deseja desenvolver, geralmente entre 4 a 10 páginas ― nem sempre requisitado, mas quando é, trata-se de uma das coisas mais relevantes para sua aplicação)
    6. Transcripts (Históricos escolares da graduação e mestrado traduzidos ― via tradução juramentada);
    7. Certificates/Degrees (Certificados ou Diplomas de conclusão de graduação e mestrado traduzidos ― via tradução juramentada);
    8. Online Application Form (Formulário de aplicação online, geralmente disponível pelo site da instituição);
    9. Proficiency Exams (caso inglês, os mais aceitos são TOEFL IBT, IELTS, Cambridge… os requisitos mínimos geralmente são dispostos na página da instituição, mas em geral pede-se nível B2+);
    10. GRE (Uma espécie de exame geral para ser aceito em algumas instituições nos EUA);
    11. Application fees (a depender da instituição, algumas cobram mas oferecem meios para abonar o valor, outras não possuem taxas de aplicação ― em geral, instituições europeias não cobram, enquanto que instituições americanas quase sempre cobram).
  • Etapas do processo:
    1. Escolha das instituições/vagas/editais que deseja tentar (sugiro os seguintes sites/meios para buscar programas e vagas em Filosofia: PHILOS-L (lista de emails internacional muito atualizada utilizada para divulgação de vagas, eventos, chamadas de artigos em Filosofia), PhilJobs (site de vagas que lista vagas em Filosofia), Jobs UK (site de vagas especificamente no Reino Unido), Jobbnorge (site de vagas especificamente na Noruega), Academic Transfer, EURAXESS (site de vagas na Europa), Philosophical Gourmet Report (ranking de instituições nos EUA em relação à Filosofia), Pluralist’s Guide (guia para programas em Filosofia voltados para abordagens não-tradicionais)  Ranking de instituições na Europa, WONDER Philosophy (Workshop voltado para auxiliar estudantes internacionais de filosofia a aprenderem como realizar submissões para vagas no exterior) e, por incrível que pareça, Twitter (seguindo pessoas de filosofia, muitas vezes aparecem oportunidades boas por lá ― foi pelo twitter que vi a vaga que consegui ser selecionado);
    2. Contato com possíveis orientadores (geralmente opcional, mas quase sempre será útil até para confirmar se de fato deseja tentar no local escolhido);
    3. Preparação da documentação;
    4. Preenchimento do formulário de aplicação;
    5. Submissão da aplicação (se possível, busque enviar várias ao mesmo tempo);
    6. Confirmação da submissão (significa que você teve sua inscrição homologada);
    7. Convite para entrevista (significa que você está na lista dos selecionados, a “shortlist”);
    8. Preparo para a entrevista (geralmente serão feitas perguntas sobre sua carreira, sua motivação para aplicar a esta instituição, se está aplicando para outras, seus interesses na área, sua pesquisa, como você e sua pesquisa irão colaborar com o programa/grupo/projeto que você está aplicando, sobre como você lida com problemas, como é seu dia a dia de estudo/pesquisa, sobre sua capacidade de cooperação, como você pretende finalizar a pesquisa no tempo devido, se você terá disponibilidade para se mudar, etc.);
    9. Resultado da entrevista (classificação em um ranking provisório elaborado pela comissão avaliativa que esteve presente na entrevista, que será posteriormente confirmado ou alterado por um comitê mais amplo composto por membros da instituição/departamento/grupo);
    10. Resultado final (confirmação final se você foi aceito para a vaga);
    11. Oferta do emprego (confirmação formal, último momento para aceitar ou recusar a vaga ― até receber isto, infelizmente ainda existem chances remotas de você ser rejeitado subitamente (chamam isto de ghosting acadêmico), então é importante ser cauteloso);
    12. Aplicação para visto e organização do procedimento de mudança (em geral, sua instituição irá auxiliá-lo no processo de aplicação para o visto, e algumas inclusive poderão oferecer alguma assistência, financeira ou de outro modo, na sua mudança/adaptação).
  • Comece o mais rápido possível a procurar por instituições e vagas desejadas e a compreender o que você precisará fazer para submeter sua aplicação;
  • Não deixe de acreditar nas suas chances! Além de provavelmente você ser muito capaz, muitas instituições do exterior buscam estudantes internacionais ― algumas inclusive dão prioridade em suas seleções.

Meu relato

Nesta seção, farei uma breve descrição de como se deu meu processo de aplicação e como está a situação atual após a aprovação em uma universidade europeia. Farei isto respondendo cronologicamente de acordo com perguntas preliminares e as informações gerais acima.

Perguntas:

  • Porque deseja buscar oportunidades fora do país?

Já tinha interesse de conseguir uma vaga de doutorado no exterior desde que iniciei o mestrado, mas naquela época havia considerado que isso seria muito difícil, então foquei em conseguir uma boa colocação em um programa de doutorado no Brasil, pois assim teria garantia de bolsa e maior chance de ser aceito em um edital de doutorado-sanduíche.

Mesmo assim, desde 2018 venho buscando oportunidades, pois essa minha vontade nunca sumiu. Em verdade, só foi aumentando à medida que a situação no país ia piorando cada vez mais. O estopim foi dado quando em Março de 2021 soube que o programa de doutorado que estava vinculado não teria nenhuma bolsa de doutorado disponível para ingressantes devido ao corte injusto feito pelo CNPq, que vem sofrendo cortes cada vez maiores no atual governo. Uma semana após saber disso, passei todo o tempo que tinha disponível pesquisando programas e vagas de doutorado no exterior que oferecessem bolsa/financiamento e que iniciassem ainda em 2021. Com o tempo, elaborei toda a documentação que precisava e já comecei a submeter aplicações.

Em resumo, minha principal motivação foi uma espécie de instinto de sobrevivência na área.

  • Pretende se mudar só ou com outra(s) pessoa(s) (parceiro, filhos, pets)?

Irei me mudar com minha parceira e nossas gatas. Caso você deseje se mudar com um acompanhante familiar/parceiro, é importante pesquisar e se informar sobre as possibilidades e requisitos para se fazer isto com segurança. Em relação aos pets, é preciso verificar a regulamentação do país de sua escolha sobre os procedimentos para viajar ― a maioria das informações necessárias consta no site do ministério da agricultura do Brasil.

  • Qual o período/ano que deseja iniciar os estudos?

Como dito acima, minha preferência era iniciar ainda em 2021.

  • Quais línguas você já domina/pretende estudar?

Felizmente já possuía um bom domínio da língua inglesa. Geralmente todas as instituições de ensino irão aceitar o inglês como suficiente, mesmo na Europa. Exceções podem existir a depender do caráter da vaga.

  • Quais são seus países/continentes de escolha?

De início, minha preferência já era a Europa. Como as universidades nos EUA tem um processo mais longo e só iniciaria no final de 2022, procurei menos vagas por lá. Também foquei em países que não cobram taxas para estudo em universidades (Holanda, Alemanha, Finlândia, Estônia, Suécia, Dinamarca, Suíça, Noruega, etc.). Como alternativas, busquei as diversas instituições do Reino Unido (especialmente Inglaterra e Escócia) e considerei a Universidade de Sydney.

  • Quais são suas áreas de interesse/especialização?

Minhas áreas de especialização são epistemologia, filosofia da linguagem e filosofia da mente. Tentei direcionar minha busca de modo que não tivesse que me adaptar muito para conseguir aumentar minhas chances, mas minha recomendação é a de se manter aberto para as diversas oportunidades que você encontrar. Como o caráter das pesquisas e projetos no exterior está cada vez mais voltado para interdisciplinaridade, é importante que você esteja ao menos ciente disso e disponível para aprender como se movimentar em outras áreas.

Felizmente, a primeira aplicação (e a que mais desejava) que fiz já foi bem sucedida. Em Agosto de 2021 inicio minha pesquisa na Universidade de Oslo, na Noruega. Mas, antes de relatar coisas mais específicas sobre esse processo, irei abaixo comentar um pouco sobre como foi a pesquisa para encontrar programas e vagas e como elaborei a documentação necessária para as aplicações que submeti.

  • Documentação
    1. Writing sample: como não tinha nenhum artigo publicado/escrito originalmente em inglês, traduzi dois artigos (um deles diretamente relacionado com meu projeto de doutorado) e um capítulo da minha dissertação ― a depender da vaga, enviava um ou mais desses textos na aplicação;
    2. Application letter: elaborei um texto geral no qual me apresentava (breve apresentação pessoal e profissional), era honesto sobre minhas motivações e situação (já estava em programa, mas precisava sair por conta do corte de financiamento), explicava minha pesquisa, oferecia considerações sobre as contribuições que ela pode prover, mostrava porque me interessei por este programa/esta vaga e ao final finalizava com observações avaliativas sobre minhas capacidades e habilidades de pesquisa e trabalho, geralmente tentando ressaltar a abertura para cooperação em grupo e interdisciplinaridade ― em geral, a estrutura e o texto sempre era o mesmo para todas as aplicações, mas adaptava as partes que diziam respeito aos programas/vagas específicos;
    3. Curriculum Vitae: busquei modelos a partir de CVs de colegas professores e de pesquisadores internacionais disponíveis pela internet (especialmente via Academia.edu);
    4. Reference letters/References: solicitei apoio dos meus três orientadores, graduação, mestrado e doutorado, pois todos sempre realmente me ajudaram durante minha carreira ― minha sugestão aqui é a de ir atrás de pessoas que realmente te conhecem, não focar em procurar “nomes conhecidos” que talvez não saibam de verdade descrever você e seu trabalho;
    5. Transcripts: inicialmente, busquei meus históricos e eu mesmo traduzi, a maioria das aplicações aceitava isto, mas depois pedia que fosse a tradução juramentada ― em geral, irão olhar a quantidade de créditos totais para checar se é equivalente aos cursos do país e então julgar a sua média geral final (GPA – Grade Point Average);
    6. Certificates/Degrees: como (até hoje) minha universidade não conseguiu entregar meu diploma de mestrado, usei as declarações que tinha, além do diploma de graduação ― também pedem que seja traduzido para o inglês, mas geralmente você pode já aplicar mesmo sem essa tradução oficial: 
    7. Online Application Form: importante buscar no site da instituição ou na chamada da vaga onde e como é feita a aplicação ― por vezes pode até ser via email;
    8. Proficiency Exams: nesse caso, já tinha um certificado de proficiência TOEFL, mas tive que fazer um novo pois este antigo já tinha passado da “validade” ― o processo do exame online do TOEFL IBT Home Edition é um pouco estranho, mas funcionou bem, recomendo que caso escolha este, tente treinar pela própria ferramenta de simulação disponível no site;
    9. GRE: como não apliquei a nenhuma universidade dos EUA, não precisei;
    10. Application fees: felizmente nenhuma aplicação que fiz requisitava pagamento de taxas.
  • Etapas dos processos (em especial o que fui selecionado):
    1. Após decidir qual continente iria me focar, busquei praticamente todas as universidades nas quais existiam programas de Doutorado em Filosofia e que permitiam realizar o curso em inglês ― busquei utilizando os sites disponibilizados acima. Então, com essa lista comecei a pesquisar detalhadamente as áreas de especialização de cada programa que eu me encaixaria e passei para a análise dos professores que poderiam possivelmente me orientar;
    2. Feito isso, enviei dezenas de e-mails (mais de 40, ao todo) para esses professores, sempre me apresentando, falando de minha situação, do meu projeto, do meu interesse em trabalhar com ele(s) ou ela(s), mas sempre deixando claro que gostaria de saber especificamente sobre vagas totalmente financiadas (bolsas, salários…). À medida que ia recebendo respostas, criava a lista de prioridades de acordo com a disponibilidade de bolsa e a receptividade dos professores ao meu projeto. Esse processo é interessante pois muitos já dão um feedback interessante sobre sua pesquisa, seja elogiando, seja oferecendo sugestões de bibliografia, ou comentando sobre como melhorar a escrita. É um processo muito trabalhoso e cansativo, mas vale a pena, mesmo sabendo que você só vai realmente entrar em uma instituição, a ideia aqui já é criar laços mínimos com a rede internacional de pesquisadores;
    3. Preparação da documentação já foi relatada acima ― reitero a importância da honestidade, pois muito poderá ser questionado na entrevista;
    4. Preenchimento do formulário de aplicação: no caso da vaga para a Noruega, todo o procedimento é realizado através do site jobbnorge.no;
    5. Submissão da aplicação: é interessante buscar comentários e sugestões de colegas pós-graduandos e professores sobre sua documentação antes de submetê-la ― quanto mais aplicações enviei, melhor fui desenvolvendo a formatação e texto dos documentos que submetia;
    6. Confirmação da submissão (significa que você teve sua inscrição homologada): geralmente ocorre de maneira automática, mas se não for o caso, tente entrar em contato por email para evitar qualquer problema;
    7. Convite para entrevista (significa que você está na lista dos selecionados, a “shortlist”): no meu caso, como fui rapidamente chamado para a entrevista para a vaga da Noruega (sempre via jobbnorge.no), essa foi a única que realizei ― depois de aceito, cancelei todas as demais aplicações, então não sei como seria feito o convite por outras instituições;
    8. Preparo para a entrevista: não é muito diferente das entrevistas de seleção de pós-graduação no Brasil, a não ser em relação ao tempo disponível. No meu caso, foram 45 minutos. Tentei me preparar antecipando perguntas, preparando textos breves sobre como minha pesquisa iria contribuir com o projeto (nesse caso, a vaga é em um projeto de pesquisa específico, no qual sua proposta original deve se encaixar na medida do possível para contribuir), como minha carreira me preparou para assumir uma vaga como essa, e também refletindo honestamente sobre as principais dificuldades que seriam enfrentadas. Foram realizadas 19 perguntas-padrão (feitas a todos os candidatos) que trataram basicamente de todos os tópicos mencionados acima. Fui o mais honesto que pude sempre, também tentando passar através de minhas respostas quem eu sou de verdade ― sério e conciso quando necessário, brincalhão quando possível e adequado. Acredito que isso foi facilitado por conta da receptividade e gentileza dos entrevistadores, fui muito bem tratado e todos de fato prestavam atenção em minhas respostas, sorriam quando gostavam de algo e não tinham medo de sair um pouco do script quando conveniente. Em relação à língua, meu conselho é não ter medo de errar, tentar pensar que os outros candidatos também não devem ser tão fluentes assim, e considerar que o mais importante é ser entendido, visto que, se te chamaram, fizeram isso sabendo que você não é de um país de língua inglesa ― um lembrete sempre bom, também, é que todos tem sotaque, não tenha medo de expressar o seu;
    9. Resultado da entrevista: em geral, esse resultado é público, mas no caso dessa seleção em específico era necessário manter sigilo (não sei ao certo o motivo). Fui contatado pela professora líder do projeto, que será minha orientadora, e mantive sigilo até que saísse o resultado final ― apenas 5 candidatos foram chamados para entrevista, e fui selecionado para ficar em 1º no ranking provisório elaborado pela comissão;
    10. Resultado final: este resultado positivo foi comunicado a mim mais ou menos duas semanas após o resultado anterior ― como dito anteriormente, foi feita uma avaliação da decisão tomada pela comissão de avaliação (que havia elaborado um relatório justificando a decisão) por parte de um grupo maior de pessoas, professores e professoras do departamento de filosofia;
    11. Oferta do emprego: pouco menos de uma semana depois, recebi o contato do chefe do departamento perguntando se eu desejava aceitar a oferta, e perguntando se eu precisava de mais tempo antes do início estipulado do projeto para poder me mudar. A partir desse ponto, já pude comemorar sem muito medo e dar prosseguimento à organização de todo o resto que faltava;
    12. Aplicação para visto e organização do procedimento de mudança: minha instituição auxilia em todo o processo de visto, de modo que não há riscos do pedido ser negado. Também oferecem todo o suporte para a mudança e adaptação no novo país. A burocracia pode ser grande e complicada a princípio, mas depois de várias perguntas e esclarecimentos, vê-se que não é lá tão diferente do Brasil ― só mais organizado, ao menos em minha experiência. Um detalhe é que em muitos países da Europa (inclusive a Noruega), doutorado é considerado um emprego, portanto você possui um contrato de trabalho, recebe salário, benefícios, paga impostos, tudo que tiver direito para viver dignamente).

Em caso de maiores dúvidas, ou caso queira que eu envie os documentos que elaborei como modelo, por favor, não hesite em entrar em contato comigo via hugormota.os@gmail.com.

Padrões Obscuros: quando a navegação é ‘malfeita’ de propósito

Você já se perguntou por que o design daquele site que deveria ser ótimo é tão ruim? Definitivamente, uma má experiência do usuário com um site nem sempre acontece porque a equipe de User Experience/Arquitetura de Informação precisa ser trocada. Veja como o Facebook e a Amazon irritam quando precisamos achar algo como desativar a nossa conta. É tão ruim ou pior do que cancelar a NET.

O que acontece é que a experiência está sendo boa para alguém que não é você, mas a empresa por trás daquele site. Estou falando dos chamados “Dark Patterns“, que são estratégias e maneiras de apresentar o conteúdo e de conduzir o usuário por um website que, em vez de ajudá-lo, o confundem. A experiência é desastrosa, mas o usuário faz o que a companhia quer, e então… bem, a meta está batida.

Quando fiz minha pós em Marketing Digital em 2008, uau, User Experience era realmente sobre deixar o usuário feliz. Era sobre tornar as coisas mas simples para o usuário, deixar a navegação intuitiva, levá-lo ao conteúdo que ele precisa acessar. As coisas mudaram muito na internet nos últimos anos. Quer dizer, não precisa ser assim. Há empresas e empresas. Dark Patterns me lembram as técnicas de “Black Hat SEO”, que eram códigos inseridos nos sites para que chegássemos até eles por meio das buscas; mas, quando chegávamos, os sites não tinham o que esperávamos. Uma frustração, porém isso ajudava a impulsionar os números de visitas e visitantes dos sites.

Hoje, técnicas aplicadas para que os usuários tomem decisões que beneficiam as companhias, em vez de beneficiarem aos usuários, têm uma ajudinha extra: a aprendizagem de máquina. Nossos dados ao infinito, processados por redes profundas com uma capacidade nunca vista antes de aproveitar esses dados para produzir mais dados ainda.

No entanto, a internet não é, ou não deveria ser, uma terra sem lei. A experiência que a gente tem navegando em sites, fazendo buscas etc deveria ser, efetivamente, boa. E, se todas as empresas na internet competem pela sua atenção, algumas deixam suas intenções mais claras, outras preferem te empurrar na direção que elas desejam. Saber o que está acontecendo a nossa volta nos ajuda a cobrar serviços melhores e isso inclui sites que funcionam pelo ponto de vista dos usuários, não somente das empresas. A quem trabalha com internet, bem, acho que vale se questionar: você deixou de ser consumidor para ser designer, arquiteto de informação, programador, empresário, empreendedor? Não. E você gostaria de encontrar Dark Patterns pela sua frente ao tentar fazer coisas que clientes fazem em sites de empresas?

Vale assistir ao vídeo a seguir:

Imagem do post: Carolina Pimenta @ Unsplash

Filosofia: uma introdução temática (Giovanni Rolla)

O livro “Filosofia: uma introdução temática” foi publicado recentemente pelo professor e pesquisador Giovanni Rolla, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), inaugurando uma coleção vinculada ao Nel – Núcleo de Epistemologia e Lógica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Está disponível como e-book e pode ser baixado gratuitamente neste link aqui.

Em 2018, o professor publicou “Epistemologia: uma introdução elementar”, também disponível gratuitamente neste outro link aqui. Impulsionado pela boa experiência anterior, desta vez o autor teve como motivação desenvolver uma obra que apresentasse problemas filosóficos a leitores interessados em filosofia, não necessariamente iniciados no campo.

Para escrever essa introdução, Giovanni Rolla partiu de suas próprias aulas, ainda que sem se limitar a elas. O resultado é um livro de grande utilidade prática para a compreensão de determinadas ideias a partir da perspectiva da filosofia. Em parte, a originalidade da obra se deve à própria maneira como as ideias são expostas, com leveza, objetividade e foco nos problemas filosóficos. Giovanni escreve de uma forma muito fluida, agradável e acessível.

A importância de um livro escrito dessa maneira para quem se interessa por filosofia, mas ainda não tem muita familiaridade com a área ou conhecimento prévio, é que começar a ler filosofia nem sempre é uma tarefa muito fácil. Uma prática comum na área é a exegese, além da investigação histórica. O problema é que essas práticas, em vez de atrair, podem acabar distanciando interessados em filosofia que não têm tempo ou fôlego para uma leitura tão minuciosa daquilo que cada autor falou e em qual contexto.

Um tanto mais rara no Brasil e, no meu entendimento, possivelmente mais proveitosa – especialmente para quem deseja contar com a filosofia para ampliar sua perspectiva acerca de determinados assuntos – é a apresentação de tópicos como Giovanni faz. Essa proposta torna o livro um interessante ponto de partida (daí o nome da coleção que a obra inaugura) para discussões que apresentam interseções com outras diversas áreas.

Na breve entrevista que fiz com o autor, ele conta um pouco mais:

1. Qual você considera que é o “público-alvo” do livro?

GIOVANNI ROLLA: Eu concebi esse livro aproximadamente a partir das minhas aulas de Introdução à Filosofia na UFBA. Essas aulas são voltadas para alunos de outros cursos que não a Filosofia, como os cursos de Direito, Psicologia, Bacharelado Interdisciplinar, Administração, Secretariado Executivo entre outros. São pessoas que ainda não tiveram muito contato com assuntos e temas filosóficos—se estudaram Filosofia, foi com o enfoque tradicional do ensino médio, que, na maior parte das escolas, é voltado para o ENEM. Então eu escrevi para esse tipo público (mas acredito que também possa ser usado, junto com outro material, no ensino médio). Ou seja, escrevi sem pressupor conhecimento de discussões filosóficas, e procurei apresentá-las com o vocabulário mais acessível possível, dentro de um recorte bem delimitado e com algumas sugestões de leitura no fim dos capítulos. Inclusive, são muitas vezes as leituras que eu uso em sala de aula.

2. A filosofia tem fama de ‘complicada’ e você, além de contribuir com o livro em si trazendo uma introdução a temas importantes da área, se mostra bastante preocupado com a linguagem que utiliza no livro, de um modo bastante simpático e que convida à leitura. Quais as dificuldades mais comuns que seus alunos encontram ao começar a ler textos filosóficos, e quais as dicas que você dá para quem deseja lê-los? Essas dificuldades inspiraram você a escrever, ou a inspiração veio de outras fontes?

G.R.: Eu acho que uma dificuldade muito geral para pessoas que estão começando a estudar filosofia consiste em adotar uma postura crítica na leitura. Com isso quero dizer que o estudo de filosofia envolve uma leitura atenta a alguns elementos que geralmente não estão presentes em outros tipos de textos (como textos literários), como argumentos, teses, objeções, distinções conceituais, etc. Estudar filosofia envolve constantemente se perguntar coisas como: “por que esses autores acham isso?”, “o que eles quiseram dizer aqui?”, “será que essa resposta resolve aquele problema?”, etc. Por causa da falta de hábito ou de treino em ler criticamente, as pessoas muitas vezes têm dificuldade de entender um texto filosófico. Mas isso, eu acho, você só aprende fazendo. Outra dificuldade diz respeito ao fato de ter que lidar com um vocabulário muito diferente do nosso vocabulário cotidiano. Isso é normal, porque a filosofia—ou melhor, a boa filosofia—pretende alcançar certo grau de rigor nas suas formulações. Isso passa pela criação de termos técnicos e de distinções, e isso pode gerar alguma estranheza aos leigos, por isso que você tem que ler filosofia tomando notas, rabiscando, destacando conceitos, sublinhando o que for importante etc.

Quanto às inspirações, eu não saberia dizer exatamente quais seriam elas. Havia uma vontade muito grande de escrever, de me manter ocupado (essa é a força que me compele sempre a participar de todos os projetos com os quais estou envolvido). Na verdade, no fundo no fundo, me parece que escrever e voltar minha atenção a problemas filosóficos (e às vezes aos problemas filosóficos que ficam na fronteira com os empíricos) é minha maneira de me manter são, de tirar um pouco minha atenção de problemas e tragédias cotidianas. A primeira versão desse livro, na verdade, tinha como alvos muito mais explícitos certas, digamos, figuras públicas que eu acredito representarem uma imbecilidade galopante que é hostil à Filosofia, e na verdade a toda vida inteligente. Eu diminuí o tom por autopreservação. Mas talvez isso mude numa eventual segunda edição a partir de 2022. Isso se meu editor Jerzy Brzozowski deixar.

3. Como foi a escolha de temas para o livro? Pode contar um pouquinho mais sobre o processo (para além do que já conta no prefácio)?

G.R.: Quando pensei em escrever um livro, tinha em mente registrar os conteúdos das minhas aulas. Mas isso foi mudando, pois, conforme avançava a escrita, eu dei uma ênfase nova a algumas questões. Um exemplo é a filosofia da linguagem e a questão da nomeação, um assunto nem sempre eu consigo trabalhar em aula. Também tirei completamente a seção de epistemologia tradicional (definição de conhecimento, ceticismo, etc.), em detrimento de uma nova seção de filosofia da ciência. Achei essa última seria mais importante para época em que a gente está vivendo, um tempo bizarro em que as pessoas pensam que tomar remédio para protozoário pode acabar com uma infecção viral. Na parte da ética eu tive mais problemas, e foi a que demorou mais para escrever, porque eu não tenho nada muito original para escrever sobre esses assuntos, e talvez também seja algo para rever no futuro. Eu admito que não tenho um único pensamento original ou interessante sobre estética, então nem me arrisquei a colocar um capítulo sobre esse tema!

4. Você acredita que existe uma “porta” certa pela qual se deve entrar quando se quer começar a  estudar filosofia ou existem várias possíveis portas de entrada? Quais dicas daria para quem quer começar a estudar?

G.R.: Eu acredito que existe uma maneira mais fácil quando se trata de uma introdução à Filosofia, que é relacionar questões de dia-a-dia ou de senso comum com problemas filosóficos. A vantagem dessa abordagem é que diminui o senso de estranheza—mas claro que nem sempre isso é possível, porque existem problemas muito técnicos e muito abstratos. Mas aí há um posicionamento meta-filosófico (que eu trato no livro), que é a continuidade da filosofia tanto com o senso comum, quanto com as questões empíricas. Há pessoas que negam essas relações, e talvez isso oriente uma preferência por ensinar e estudar filosofia de um ponto de vista estritamente histórico (tive excelentes professores que faziam isso). Mas como eu nunca fui bom nisso e nunca fiz história da filosofia com muito ânimo, prazer ou virtude, então não saberia como começar dessa perspectiva. 

Acho que uma dica primordial para qualquer material filosófico com que você se deparar é ler se perguntando ‘por quê?‘. 

5. Se quiser fazer mais algum comentário, esta é a hora 😉

Por enquanto, eu só quero agradecer pelo espaço e pela divulgação mais uma vez 😉 Um abraço! 

Eu que agradeço ao prof. Giovanni Rolla pela entrevista.

Prof. Dr. Giovanni Rolla é professor adjunto de Filosofia pelo Departamento de Filosofia da Universidade Federal da Bahia. É membro permanente do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da mesma universidade e membro fundador dos grupos de pesquisa interinstitucionais Enactive Cognition & Narrative Practices (Wollongong-AUS) e do grupo de pesquisa Cognição, Linguagem, Enativismo e Afetividade (Brasil). É doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2017), mestre (2013), bacharel (2010) e licenciado (2015) em Filosofia pela mesma universidade. Atua principalmente com filosofia da cognição, teorias da cognição corporificada, variedades de enativismo, teorias da percepção e teorias da informação.

ROLLA, GIOVANNI. Filosofia – uma introdução temática. Florianópolis: UFSC, 2021.

Natural-Born Cyborgs (Andy Clark)

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O filósofo e cientista cognitivo Andy Clark, junto com o filósofo David Chalmers, é o proponente da Tese da Mente Estendida, que eles lançaram em seu famoso ensaio de 1998. Neste livro, Natural-Born Cyborgs – publicado em 2003 – Clark propõe que nós, humanos, somos ciborgues pela nossa capacidade de acoplamento com as tecnologias. Por meio de nossa conexão com todos os tipos de dispositivos – não apenas os digitais – podemos agregar uma ampla gama de recursos aos nossos sistemas cognitivos, em um processo que estende nossas mentes pelo mundo. Clark, portanto, defende que a mente humana não está restrita ao cérebro e nem mesmo ao corpo (e ele usa algumas expressões interessantes e incomuns para se referir a essas características, como “skinbag”, “brainbound”, “naked brain”). Andy publicou vários livros realmente bons, mas este ainda é um dos meus favoritos. Se você gosta de tecnologia e tem interesse nas relações entre humanos e tecnologia, tenho certeza de que vai gostar muito deste livro.

O filósofo e cientista cognitivo Andy Clark, junto com o filósofo David Chalmers, é o proponente da Tese da Mente Estendida, que eles lançaram em seu famoso ensaio de 1998. Neste livro, Natural-Born Cyborgs – publicado em 2003 – Clark propõe que nós, humanos, somos ciborgues pela nossa capacidade de acoplamento com as tecnologias. Por meio de nossa conexão com todos os tipos de dispositivos – não apenas os digitais – podemos agregar uma ampla gama de recursos aos nossos sistemas cognitivos, em um processo que estende nossas mentes pelo mundo. Clark, portanto, defende que a mente humana não está restrita ao cérebro e nem mesmo ao corpo (e ele usa algumas expressões interessantes e incomuns para se referir a essas características, como “skinbag”, “brainbound”, “naked brain”). Andy publicou vários livros realmente bons, mas este ainda é um dos meus favoritos. Se você gosta de tecnologia e tem interesse nas relações entre humanos e tecnologia, buscando uma nova abordagem para o assunto, tenho certeza de que vai gostar muito deste livro.

The philosopher and cognitive scientist Andy Clark, together with the philosopher David Chalmers, proposed the Extended Mind Thesis, which they released in their famous essay published in 1998. In this book, Natural-Born Cyborgs – published in 2003 – Clark proposes that we, humans, are cyborgs due to our capacity of coupling with technologies. Through our connection with all kinds of devices – not only the digital ones – we can add a wide range of resources to our cognitive systems, in a process that extends our minds through the world. Clark, therefore, advocates that the human mind is not restricted to the brain and even not to the body (and he uses a few curious, self-made unusual expressions to refer to these features, such as “skinbag”, “brainbound”, “naked brain” so on). Andy has published several amazing books, but this is still one of my favorites. If you like technology and would like a new approach to human-technology relations, I am sure you will love it.

The philosopher and cognitive scientist Andy Clark, together with the philosopher David Chalmers, is the proponent of the Extended Mind Thesis, which they released in their famous essay published in 1998. In this book, Natural-Born Cyborgs – published in 2003 – Clark proposes that we, humans, are cyborgs due to our capacity of coupling with technologies. Through our connection with all kinds of devices – not only the digital ones – we can add a wide range of resources to our cognitive systems, in a process that extends our minds through the world. Clark, therefore, advocates that the human mind is not restricted to the brain and even not to the body (and he uses a few interesting, unusual expressions to refer to these features, such as “skinbag”, “brainbound”, “naked brain” so on). Andy has published several amazing books, but this is still one of my favorites. If you like technology and are interested in human-technology relations, I am sure you will love it.

CLARK, ANDY. NATURAL-BORN CYBORGS. Oxford University Press, 2003.

The Promise of Artificial Intelligence (Brian C. Smith)

Livro que recomendo para quem se interessa por AI/machine learning sob um olhar filosófico / Book I recommend to those interested in AI/machine learning through a philosophical perspective

Uma das características mais interessantes deste livro, eu acredito, é conduzir uma discussão sobre quais atividades devemos ou não deixar para a IA. Smith não está interessado em fazer uma comparação entre humanos e máquinas, como ele mesmo deixa claro no início do livro, mas em questionar a ontologia por trás das premissas que norteiam a IA em nossa sociedade. Ao fazer isso, o autor nos oferece uma perspectiva rica e profunda da IA por meio de lentes filosóficas, abrangendo questões éticas, técnicas e cognitivas. Se você estiver interessado em questões como os recursos que tornam os humanos humanos, onde estamos como sociedade quando se trata de IA, como o aprendizado de máquina pode mudar nossas vidas e o que é inteligência, este livro oferece uma perspectiva que pode ajudá-lo a pensar sobre isso.

One of the most interesting features of this book, I think, is to lead a discussion on which activities we should or should not leave up to artificial systems. Smith is not interested in making a comparison between humans and machines, as he himself makes clear in the beginning of the book, but to question the ontology that underlies the premises guiding AI in our society. In doing so, the author offers us a rich, deep perspective of AI through a philosophical lens, encompassing ethical, technical and cognitive issues. If you are interested in questions like the features that make humans human, where we are as a society when it comes to AI, how machine learning may change our lives and what intelligence is, this book offers a great perspective and may help you think these through.

SMITH, BRIAN C. THE PROMISE OF ARTIFICIAL INTELLIGENCE – RECKONING AND JUDGEMENT, MIT Press, 2019

I Seminário Internacional: Reconceitualizando a Educação (PUC-Rio)

Nos dias 15 e 16 de abril a PUC-Rio promove o I Seminário Internacional: Reconceitualizando a Educação, evento que oferece intensa programação com a participação de diversos professores da instituição e de instituições parceiras, no Brasil e no exterior. Haverá palestras, mesas e rodas de conversa, sendo a primeira delas dedicada ao lançamento do livro Deseducando a Educação: mentes, materialidades e metáforas. O livro é organizado pelos professores Ralph Ings Bannell, Mylene Mizrahi e Giselle Ferreira.

Tudo poderá ser acompanhado pelo canal do Departamento de Educação da PUC-Rio no YouTube

Programação:

DIA 15/04 (5a feira)

9h30 – Cerimônia de Abertura

10h – Apresentação do livro Deseducando a Educação: mentes, materialidades e metáforas

–12h30 – Intervalo–

14h – Diálogos Transversais

Serão 5 rodas de conversa em diferentes temas, ocorrendo simultaneamente, pela plataforma Zoom (em breve divulgo a programação detalhada de cada uma).

16h – Entrevistas e palestras

DIA 16/04 (6a feira)

10h – Mesa Redonda Paulo Freire Internacional

–12h30 – Intervalo–

14h – Diálogos Transversais

Serão 2 rodas de conversa em diferentes temas, ocorrendo simultaneamente, pela plataforma Zoom (em breve divulgo a programação detalhada de cada uma)

16h – Seção de Encerramento

Notas sobre filosofia e ciência (2): o estudo da experiência a partir da primeira pessoa

Este post foi escrito a partir do artigo An Introduction to the Enactive Scientific Study of Experience (Moguillansky, Demsar & Riegler, 2021) e dos livros The Embodied Mind (Varela, Thompson e Rosch, 2016) e Mind in Life (Thompson, 2007).

A ciência é feita a partir da observação. Entende-se que aquilo que se observa está no mundo como algo alheio ao observador; algo separado dele. O problema com isso é que estamos inseridos no próprio mundo que desejamos desvendar por meio da ciência. Então, o estudo da experiência humana deveria ser foco da atenção da ciência…

Apesar disso, demorou para que fosse lançada essa luz sobre a observação da experiência em si. A ciência ocidental negligenciou a experiência a partir da primeira pessoa para privilegiar a perspectiva da terceira pessoa. O conhecimento sob a perspectiva da primeira pessoa, por sua vez, tem sido considerado pouco confiável ou sujeito a desvios.

De todo modo, isso tem mudado: a visão tradicional que coloca o objeto de estudo de um lado e o observador de outro, gerando um abismo quando se trata justamente de compreender a experiência humana, tem sido desafiada junto com uma visão crítica, emergente, que reconhece o papel do observador e de sua experiência corporificada (isto é, levando em conta o seu corpo como um todo, e de várias maneiras – a partir de uma concepção de cognição corporificada e situada) para a geração de conhecimento.

Existe um programa de pesquisa chamado NEUROFENOMENOLOGIA, proposto por Francisco Varela (1996), que trata justamente de desenvolver uma ciência para o estudo da consciência. A proposta valoriza a experiência vivida, convocando um diálogo entre as abordagens tradicionais, fundamentadas na terceira pessoa, e a investigação a partir da perspectiva da primeira pessoa. Métodos e procedimentos específicos para esse tipo de pesquisa têm sido desenvolvidos. Ainda não está consolidada a maneira de aproximar as perspectivas da primeira e da terceira pessoa, mas isso está sendo encaminhado e tem sido objeto de debate no campo da ciência cognitiva.

Aliás, como ressaltam os autores do artigo An Introduction to the Enactive Scientific Study of Experience (Moguillansky, Demsar & Riegler, 2021), o estudo da cognição humana é marcado por um paradoxo: o ser humano e a maneira como obtemos conhecimento do mundo torna-se o próprio objeto de estudo de… seres humanos tentando conhecer melhor o mundo; leia-se os cientistas cognitivos, filósofos, psicólogos e afins. Isto é, se a ciência empreende esforços para investigar fenômenos, produzindo explicações e descrições desses fenômenos, a ciência cognitiva tem como principal fenômeno de investigação a cognição em si.

Historicamente, temos aplicado regras para estudar a realidade – regras que compõem metodologias científicas desenvolvidas para estudar objetos desatachados de seus observadores, e que remetem a Descartes, filósofo racionalista que procurou criar um método para chegar à verdade científica. Descartes via a realidade como algo separado de nós; para compreendermos essa realidade, deveríamos separá-la em pedacinhos menores, mais simples, para depois evoluir para algo mais complexo que juntasse esses pedaços (assim ele compreendia a nossa apreensão da realidade; uma concepção que vinha da física, tal como estava se desenvolvendo na época dele, no século XVII). Bem, Descartes veio antes da fenomenologia, que viria propor justamente o estudo da experiência, partindo do todo, não de partes constitutivas do todo.

E hoje não temos apenas um método, como já mencionei.

O problema é que se passaram séculos e continuamos tratando a realidade como algo separado de nós mesmos. Então, a proposta de investigar a partir da primeira pessoa é uma proposta para tentar ajustar isso.

Os autores do artigo explicam que é necessário desenvolver “uma concepção não objetivista da ciência que torne impossível pensar na ciência como uma ferramenta para lançar luz sobre as coisas em si. Em vez disso, o entendimento enativo da ciência sugere que devemos considerar a atividade científica como a extração sistemática e cada vez mais sofisticada de regras da nossa própria experiência vivida. Como tal, a ciência não apenas é falível e propensa a erros, mas também inextricavelmente conectada a nós”.*

Isso, por si só, já é uma reorientação do olhar. Pois caminhamos de uma apreensão das coisas como elas são, aplicando regras pré-fabricadas sobre objetos “alheios” a nós, para uma mudança conceitual e postural, que consiste em tentar colher das próprias coisas que observamos as regras para observá-las. Um dos principais pontos dessa mudança é que, ao reportar experiências, isto é, falar sobre elas, as pessoas tendem a reproduzir crenças sobre como essas experiências acontecem, sobre si mesmas, sobre o mundo, em vez de se ater à experiência vivida, em si. É uma questão do que é/o que existe versus o que é descrito/estudado; de novo a ontologia e epistemologia; como quando passamos por uma situação de pânico e depois contamos sobre a situação a alguém. O que sentimos é uma coisa, o que contamos é outra (que pode conter muito da primeira, mas pode passar por várias releituras e racionalizações quando já estamos “fora” daquela ação).

Ainda segundo o artigo que menciono aqui, os primeiros estudos com métodos bem definidos, no contexto neurofenomenológico, foram conduzidos pela pesquisadora Claire Petitmengin e trataram do surgimento da intuição. Eles deram origem ao que hoje se denomina entrevista microfenomenológica. A ideia é “auxiliar o entrevistado a selecionar uma experiência singular, precisamente situada no espaço e no tempo, ‘evocando’ essa experiência e descrevendo-a. A descrição geralmente visa elucidar tanto a dimensão síncrona quanto a diacrônica de uma dada experiência. A primeira se refere à configuração de diferentes aspectos da ‘paisagem’ experiencial em um determinado momento, e a última a como essa paisagem experiencial se desdobrou ao longo do tempo. Auxiliar o entrevistado a fornecer esta descrição implica em afrouxar sua absorção no conteúdo (o “o que”) da experiência, fazendo perguntas específicas que permitem a articulação de seu modo de doação (o “como”), bem como fazer o entrevistado concentrar-se na experiência vivida sempre que se desviar dela para descrever generalizações, explicações, crenças ou julgamentos”.

Mesmo após algumas leituras, claro, ainda tenho várias questões sobre como a entrevista microfenomenológica é conduzida, as dificuldades que envolve etc. Algumas delas com certeza serão elucidadas junto a uma das autoras do artigo, Dra. Camila Moguillansky, que estará com o grupo de pesquisa GEPFE, de Filosofia da Educação, de que participo na PUC-Rio. Compartilho mais depois.

*Traduções feitas por mim, do inglês

Imagem do post: Icons8 Team @ Unsplash

Notas sobre filosofia e ciência

Inspiradas especialmente (mas não somente) pela leitura de “Maturana e a Educação”, de Nize Pellanda, Editora Autêntica, 2009

“Quando o conjunto de teorias disponíveis numa época não dão mais conta de novos objetos da ciência, começam a emergir outras teorias que vão configurar um novo paradigma científico. Nesse conjunto, há sempre um grupo de pressupostos básicos e conceitos fundamentais que vai fazer o papel de urdidura de uma rede orgânica e coerente que é o paradigma”, diz Nize Pellanda, à página 13 do livro Maturana e a Educação (Ed. Autêntica, 2009). A autora esclarece que se refere, aqui, ao conceito de paradigma tal como concebido por Thomas Kuhn.

Essa explicação para o surgimento de novas teorias é simples: se precisamos estudar certos objetos, fenômenos, acontecimentos que fogem às teorias que temos disponíveis para compreendê-los, estamos precisando de… novas teorias. Apesar de simples, esse raciocínio esconde alguns aspectos, digamos, espinhosos no campo da pesquisa.

Por exemplo, a tentativa de “encaixar” novos objetos de pesquisa em velhos paradigmas ou o hábito de seguir analisando fenômenos científicos a partir de premissas que eventualmente já foram superadas ou precisam ser revistas/remodeladas. Sim, mesmo sem que se perceba, isso muitas vezes acontece. E a importância da pesquisa teórica passa por aí: a necessidade de conhecer a teoria para que ela sirva para a empiria de modo a abrir caminho para novas descobertas. Afinal, ao mudar os fundamentos, mudamos o que é construído sobre esses fundamentos. Lembrando que mudar os fundamentos não é jogar fora tudo que se sabe até dado momento para começar a construir tudo de novo, do zero, mas saber agregar o que é novo ao que se provou ser válido no “velho”.

Também na pesquisa ainda se observa, por vezes, uma certa insistência em fazer perguntas esperando uma determinada resposta (em vez de estar verdadeiramente aberto aos resultados que podem surgir). O pesquisador precisa topar o desafio de não saber bem onde chegará. Faz parte do show. Afinal, o caminho será construído durante a própria investigação que ele vai fazer; então, como saber o que será encontrado no ponto final? Claro, é preciso ter perguntas que impulsionem esse caminho e um método que sirva como guia; ter parâmetros, ter prazos, tudo isso é essencial; também é natural ter expectativas sobre as descobertas que serão feitas, e levantar hipóteses é mais do que recomendado; mas, sem uma real abertura ao novo, a pesquisa perde o sentido.

Ainda no citado livro sobre Humberto Maturana, um conhecido neurobiólogo chileno, a autora afirma que têm surgido objetos cada vez mais complexos no trabalho científico e que esses objetos desafiam as formas tradicionais de pesquisa. É difícil falar da importância da obra de Maturana sem mencionar esse fato, porque a proposta teórica desse autor emerge justamente do seu trabalho como cientista, que o leva a concluir que o mundo não é fragmentado e não é uma realidade à parte; o investigador faz parte dessa realidade, a constitui.

O neurobiólogo é um dos pensadores do chamado paradigma da complexidade – o qual supera a realidade concebida de maneira “linear, fragmentada como se fosse uma coleção de coisas e estável”, sendo o sujeito que estuda essa realidade sempre externo a ela (página 14 do livro Maturana e a Educação). Se não somos sujeitos externos à realidade que observamos e que desejamos investigar, somos parte dessa realidade; desse modo, nota-se que epistemologia e ontologia não se separam. Isto é, “observar faz parte não somente da geração do fenômeno a explicar, como também da própria ontologia de cada observador” (página 26 do livro Maturana e a Educação).

Estou levantando muitas questões para um post só, eu sei. É que o objetivo deste post é, justamente, fazer anotações para depois juntar tudo de alguma maneira num texto mais coerente (ou não). O processo de pesquisa também passa por isto, especialmente o processo de uma pesquisa teórica.

Neste caso aqui, ficam algumas questões importantes para possíveis discussões futuras:

  • A impossível dissociação entre sujeito observador e realidade observada torna impossível a “neutralidade” na pesquisa?
  • O que seria essa almejada “neutralidade” e qual seria a importância dela, se houver?
  • Por que não se pode separar ciência e filosofia, teoria e prática, humano e natureza, mente e corpo, epistemologia e ontologia?

E muitas outras perguntas mais.

Imagem do post: Photo by Moritz Kindler on Unsplash