Vício em tecnologia: o que estamos fazendo?

Escrevi uma matéria sobre o uso da tecnologia de inteligência artificial da IBM (chamada Watson) no Museu do Amanhã do Rio de Janeiro e na Pinacoteca de São Paulo. No Museu do Amanhã, o recurso localiza-se ao final da exposição principal, que é permanente. Para entender com detalhes como funciona e ler outros depoimentos e entrevistas, peço que o leitor visite a página da matéria no site Porvir, onde foi publicada.

O que venho abordar aqui neste post é uma das reflexões que a apuração da matéria me trouxe. Para levantar as informações, fui conhecer pessoalmente a tecnologia no Museu do Amanhã, batizada de IRIS+. Lá, conversei com especialistas e visitantes, entre eles um garoto de onze anos, para colher depoimentos para a reportagem. Eis que, ao lhe perguntar o que o afligia, ele respondeu: o vício. Tímido, foi bem sucinto em sua resposta, mas nem precisava mesmo falar muito, impactante que soou aquela afirmação para mim. Para completar, lhe perguntei o que ele havia aprendido ali, naquele dia, e ele me contou que se deu conta de que a tecnologia não é so vicio, mas pode ajudar as pessoas, também.

Tela da IRIS+, inteligência artificial do Museu do Amanhã

Talvez os familiares e professores desse menino já tenham chamado a sua atenção por ele estar “pendurado” no tablet, videogame ou no celular (como acontece com o meu enteado, esse da foto do post, ou outras tantas crianças que conhecemos). Talvez não. Mas o fato é que, caso esteja acostumado a ouvir esse tipo de comentário, ele é somente um em meio a um mar de dependentes das tecnologias, sejam eles jovens ou não. Muitas vezes, quem chama a atenção das crianças também está no caminho de se viciar, ou já é viciado. Ao menos, ele demonstrou uma postura consciente a respeito da questão.

Não vou, neste post, entrar no mérito de discutir o que caracteriza vício ou dependência. Há quesitos médicos para identificá-los? Sim. Mas, aqui, vou me limitar à faceta do vício que é aquela do bom senso e do bem estar (talvez a primeira barreira a ser ultrapassada rumo a uma dependência maior): se está nos fatigando, nos esgotando, roubando nosso tempo de atividades importantes, fazendo as pessoas chamarem a nossa atenção… tem grandes chances de ser vício. Foi assim com Catherine Prince, que escreveu este artigo para o New York Times. Ela concluiu que precisava encontrar uma maneira mais saudável de se relacionar com seu smartphone.

Lembro que fiquei absolutamente impressionada quando, ao assistir “Lo and Behold, Reveries of the Connected World”, de Werner Herzog (sobre o qual já comentei aqui antes) soube que adolescentes usam fraldas porque se recusam a levantar para ir ao banheiro durante as intermináveis partidas de videogame que disputam, sem poder correr o risco de perder. O documentário versa sobre essas e outras impugnações do mundo digital, sem deixar de destacar, por outro lado, algumas das grandes maravilhas fascinantes da nossa vida tão conectada.

“Heroína eletrônica”

Em 2014, um estudo da Universidade de Hong Kong revelou que cerca de 6% da população mundial seria viciada em internet. Na China, existem centros de reabilitação para dependentes da rede, que são como acampamentos militares, como conta esta matéria do Business Insider. No vídeo abaixo, dá para sentir um pouco do clima de um local como esses:

Nesse minidocumentário, no qual os games aparecem como os campeões de vício, um especialista refere-se aos jogos como uma espécie de “heroína eletrônica”. Ele fala do tal medo (preocupante, para dizer o no mínimo) que os dependentes sentem quanto a pausar para ir ao banheiro e perder o jogo. Muitos aparecem fumando enquanto jogam, o que mostra outro vício associado. Outros não se identificam como viciados. Os pais são aconselhados quanto às formas de lidar com o problema dos filhos. O especialista questiona: “Vocês sabiam que eles se sentem sozinhos?”

Conectados, mas sozinhos

A pesquisadora Sherry Turkle reforça esse argumento. Estamos hiperconectados, mas… nunca estivemos tão sozinho, diz ela, que é autora de vários livros sobre o tema e professora no Massachusetts Institute of Technology (MIT).

As pessoas deixam de se comunicar num mundo em que só se fala em comunicações e no qual as redes sociais online proliferam. Batem seus carros porque estão lendo mensagens no celular, ou checando suas redes sociais. Vidas são perdidas – no sentido literal ou não – em função desse vício. Perdem-se vidas, perde-se tempo. Ganha-se tempo com as tecnologias, também, é claro; sou uma entusiasta delas, afinal. Mas faço questão de criticá-las. Penso ser fundamental que todos nós façamos isso, pois somos os principais interessados. Tecnologias são feitas por nós e para nós, então para que nos interessam? Como podem nos ajudar, ampliar nossas capacidades, contribuir para que evoluamos como sociedade? Mais do criticar, isso é buscar aprofundamento, tentar compreender a função das tecnologias, o que está por trás delas, o que nos move para que tentemos tanto desenvolvê-las, aonde queremos chegar, em que elas nos transformam. Quem somos com as tecnologias? Quem seríamos sem elas? Somos dominados por elas ou as dominamos? #ficaareflexão

Imagem do post: foto de Luís Berbert

Os museus e a inteligência artificial

Recentemente, tive o prazer de entrevistar profissionais do Museu do Amanhã e da Pinacoteca de São Paulo, além de um especialista da IBM, para escrever sobre o uso da inteligência artificial nesses dois museus. Trata-se de um recurso múltiplo, capaz de aproximar o público das exposições e envolver os visitantes em uma experiência diferente.

Há muitas incertezas no cenário do uso da I.A., seja em museus ou em qualquer contexto. Mas não há dúvidas de que a tecnologia abre vários caminhos novos para que o público explore formas inovadoras de se relacionar com as exposições nesses espaços de uma maneira mais ativa.

As entrevistas resultaram em uma matéria publicada no site Porvir.

Leia a matéria 

Foto do post: Guilherme Leporace/Museu do Amanhã

Vida, ciência, tecnologia: seleção de reportagens e artigos

Train PhD students to be thinkers not just specialists

Aqui no Brasil, imagino que bastante gente não saiba que a sigla PhD quer dizer ‘Doctor of Philosophy’. Pode ser até porque seu significado, na prática, anda deixado de lado. A ideia dos pesquisadores Gundula Bosch e Arturo Casadevall, que estão por trás da R3 Graduate Science Initiative na Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, em Baltimore, Maryland, é fazer exatamente esse esforço: o de colocar o Ph de volta nessa sigla, para valer. Os pesquisadores alertam quanto à falta de pensamento crítico e de reflexão na formação de pesquisadores, e foi para mudar isso que criaram o programa.

Sem educação, os homens “vão matar-se uns aos outros”, diz António Damásio

O autor lançou um livro novo, “A estranha ordem das coisas”, que conta ser a continuação de “O erro de Descartes”, publicado há 22 anos. Para quem deseja saber mais sobre o papel das emoções nas decisões que tomamos, esse autor é importantíssimo.

Empresas tecnológicas barram pornô manipulado por inteligência artificial

Uma das preocupações que surgem com o desenvolvimento das tecnologias de inteligência artificial é a manipulação indevida de nossos dados e imagens. Imagina se seu rosto fosse “encaixado”, por meio de uma tecnologia, no corpo de atores/atrizes em um filme pornográfico? Aconteceu com algumas atrizes famosas, como mostra essa matéria do El País. E você aí achando que o maior perigo são os robôs.. que nada, são os humanos, mesmo…

A doença de Alzheimer não pode com a música

A música pode ser, para o cérebro, uma memória muito diferente das demais. Por isso, pessoas com Alzheimer são capazes de cantarolar canções antigas, apesar de terem dificuldade com outros tipos de conteúdo. Essa matéria fala sobre isso.

The “Father of Artificial Intelligence” Says Singularity Is 30 Years Away

Em cerca de 30 anos, as máquinas serão muito mais hábeis e rápidas que nossos cérebros, a tecnologia será mais barata, e assim teremos a singularidade tecnológica. É nisso que acreditam vários especialistas em inteligência artificial. Como venho repetindo por aqui, há pesquisadores que defendem que a questão não está apenas no cérebro, então… será que a singularidade tecnológica vai ser atingida mesmo somente com os devices feitos à semelhança de nossos neurônios e suas conexões? Bom, essa é mais uma matéria que diz que sim.

Imagem do post: Joel Filipe @ Unsplash

 

 

 

 

Vida, ciência, tecnologia: seleção de reportagens e artigos

Vejo tanto conteúdo bacana sobre inteligência artificial, tecnologia & seus impactos, vida digital & sociedade, robótica e afins, que vou tentar manter aqui no blog um espaço para seleções (ainda não sei se semanais, mensais ou de acordo com minha disponibilidade…) de artigos e matérias voltados para o tema; assim, eu não perco os links que tanto me interessaram e ao mesmo tempo os compartilho com os amigos leitores também conectados com esse universo. Importante destacar que não necessariamente concordo com tudo (provavelmente não!), mas pretendo trazer opiniões e pontos de vista diversos, para justamente formarmos um debate. É nisso que acredito, afinal.

O reconhecimento facial abre caminho para o pesadelo de George Orwell

Tudo tem, pelo menos, dois lados. Esse artigo da seção de Inteligência Artificial do El País, na verdade uma subseção da editoria de Tecnologia do veículo, mostra como podem ser os desdobramentos advindos da tecnologia de reconhecimento facial, uma vertente da I.A. bastante promissora e que não se limita à ficção faz tempo.

CEOs should do these three things to help their workforce fully embrace AI

Este é um conteúdo patrocinado pela Accenture, publicado no site Quartz; recomendo, portanto, que seja lido criticamente, uma vez que se uma empresa bancou um conteúdo sobre o tema… ao menos devemos ser analíticos ao ver os pontos destacados, certo? Considero alguns deles bem interessantes, como o fato de que o impacto maior das máquinas no mercado de trabalho não ser provavelmente tanto na quantidade de empregos, mas no conteúdo das funções realizadas.

O que é futurismo?

Você sabe o que ;é? O termo me chamou a atenção quando trabalhei no Museu do Amanhã, onde volta e meia ouvia alguém mencioná-lo. Esse artigo do Draft, de agosto do ano passado, ajuda a entender.

A.I. Is Doing Legal Work. But It Won’t Replace Lawyers, Yet 

O artigo não é novo, foi publicado há quase um ano, mas eu só o descobri esta semana graças a um post de uma amiga no LinkedIn. Trata de como a I.A. (ao menos ainda) não vai substituir o trabalho dos advogados, mas por enquanto poderá fornecer recursos para que suas rotinas se tornam mais rápidas e eles possam focar em trabalhos mais profundos, e necessários. A reportagem menciona este artigo: Can Robots Be Lawyers? Computers, Lawyers, and the Practice of Law, de Dana Remus e Frank Levy.

O impacto do ensino da arte (ou da falta dele) na percepção do mundo

Neste artigo, também não recente – publicado no site Fronteiras em 2015 – Camille Paglia fala sobre como faz falta o ensino da arte, que segundo ela seria um importante contraponto para a sociedade essencialmente digital em que vivemos.

Imagem do post Clem Onojeghuo @ Unsplash

 

 

Os gestos e a cognição

Lembro bem de quando minha mãe me explicava química orgânica, em “aulas” na minha casa das quais também participavam meus colegas preocupados com o vestibular. Ela fazia gestos no ar, que representavam as cadeias de carbono. Com as mãos, nos fazia pensar em como as cadeias se conectavam. Aprendíamos com muito mais facilidade com aquele gestual todo, que complementava tão bem as explicações que ela dava.

Minha mãe nao é a única a gesticular bastante enquanto fala ou explica algo. Nasci em uma família de descendentes de italianos; gestos, portanto, são algo que não economizamos. É impressionante como mexemos as mãos ao falar! E não precisamos estar na presença da pessoa, gesticulamos quando falamos ao telefone também (e caminhamos para lá e para cá)…

Eis que na ciência cognitiva há uma explicação para essa profusão de gestos, sempre a acompanhar as palavras quando se trata não só da minha família, claro, mas de todos nós. Pesquisas apontam que os gestos são constitutivos dos nossos processos cognitivos, o que significa que vão muito além de simples expressões de pensamentos prontos. Os gestos são parte do processo de pensar. É nisso que acredita Andy Clark, que em seu livro Mindware – An Introduction to the Philosophy of Cognitive Science procura nos fazer refletir sobre o assunto destacando exatamente o exemplo que dei ali acima: gesticulamos ao falar com as pessoas ao telefone, ou seja, mesmo que nossos interlocutores não estejam nos vendo! Além disso, gesticulamos no escuro, quando ninguém pode ver, e também quando precisamos escolher entre algumas opções ou encontrar uma solução para determinado problema, em vez de apenas relatá-lo a alguém. Esses são indícios de que gesticular não tem a ver (ao menos não apenas) com transmissão de informação!

As mãos e a cognição

Provavelmente por conta disso é que as mãos se tornam grandes aliadas do processo de aprendizagem para as crianças, como defende a especialista em desenvolvimento cognitivo Susan Goldin-Meadow. A pesquisadora tem um trabalho interessantíssimo, voltado para o uso dos gestos no desenvolvimento da linguagem e de outras capacidades cognitivas.

Ela explica, no vídeo que está embedado a seguir, por que o uso das mãos é tão importante quando as crianças estão aprendendo. Ressalto que, nesse caso, o papel dos gestos manuais vai muito além do que normalmente se comenta com relação ao poder do uso das mãos em discursos e outras formas de comunicação: no caso da aprendizagem, não se trata apenas da importância dos gestos e das mãos para dar ênfase a pontos importantes passados aos alunos pelos professores; os gestos que os próprios alunos fazem durante a aprendizagem contribuem expressivamente para o processo, além de, quando observados, revelarem muito sobre o andamento desse processo para cada criança.

Talvez esse seja um excelente lembrete para evitarmos que as mãos de nossas crianças se limitem a apenas tocar as telas de tablets e smartphones:

Segundo a pesquisadora, famílias que gesticulam mais também contribuem para a formação do vocabulário de suas crianças – talvez seja essa uma das razões que me levaram a me apaixonar pela comunicação e então me tornar jornalista! Aliás, na faculdade de jornalismo fomos encorajados a deixar as mãos quietas enquanto falamos em público, mas se dependesse de ter sucesso nisso eu provavelmente não teria me formado… 🙂

 

 

Robôs: tecnologia corporificada?

O robô da foto acima é o Asimo, criado pela Honda. A primeira versão dele foi lançada em 1986. O Asimo anda, corre, sobre escadas, segura objetos, entende de comandos de voz; é um robô cada vez mais completo. Será mesmo?

Apesar de fazer tudo isso, Asimo consome 16 vezes mais energia que nós, humanos, para andar. Essa ineficiência energética decorre do fato de que, nesse robô, tudo é uma questão de processamento central: todo movimento que ele realiza, todas as suas ações são fruto de um design baseado em algoritmos, que resolvem questões relacionadas às funções da visão, navegação e do equilíbrio desse robô; os algoritmos passam instruções detalhadas para a máquina seguir.

Além da ineficiência energética, um outro problema que o Asimo enfrenta relaciona-se ao seu equilíbrio: ao caminhar sobre uma superfície plana, ele dá conta do recado. Mas, se precisar fazer movimentos para se resguardar de oscilações no chão, por exemplo, ele falha tentando realizar cálculos que o mantenham de pé.

Andrew D. Wilson é um cientista cognitivo interessado no estudo de robôs que conseguem aproveitar o ambiente para se saírem melhor nas tarefas para as quais são designados. Ele propõe em um artigo publicado no Psychology Today a comparação do Asimo a um outro robô, chamado Big Dog, desenvolvido pelo Leg Lab do MIT*. Contando com membros elásticos, ligamentos bem localizados, caudas que se movem corretamente por causa da forma como foram construídas, e não porque há um processador central no comando, diz Wilson, Big Dog se sai muito melhor do que Asimo no quesito movimentos corporais.

A forma como Big Dog foi pensado e construído voltou-se para o aproveitamento máximo do ambiente “real” (não de laboratório) com suas irregularidades e seus obstáculos. Esses elementos do ambiente, em conjunto com o “corpo” construído para o robô visando o melhor desempenho e fundamentado em suas características físicas, dá origem a um sistema dinâmico em que as partes se complementam. O resultado é que o Big Dog se sai muito bem em situações imprevisíveis; por exemplo, se cai, levanta; se é empurrado, seu “corpo” reage, e por aí vai.

O que esses robôs nos ensinam?

“A diferença entre os dois robôs é que o Asimo representa mentalmente suas habilidades, enquanto o Big Dog as corporifica”, diz Wilson. Isso significa que o Asimo precisa de um intrincado maquinário computacional, gerenciado por um processador central, capaz de apresentar um algoritmo para cada função que ele venha a exercer. Seu “corpo” é como se fosse um apêndice, um apoio; assim, para Wilson, o Asimo nao é de fato uma tecnologia corporificada: para sê-lo, precisaria de fato utilizar seu corpo e, na dinâmica com o ambiente, potencializar suas capacidades físicas. Esse é o caso do Big Dog e de muitos outros robôs, uma vez que essa tem sido a tendência no campo da inteligência artificial e da robótica.

Imagem: http://robohub.org/

O design do Asimo não reflete a forma como nós, humanos, funcionamos. Somos muito mais como o Big Dog.Nosso corpo aproveita o ambiente de diversas formas, algumas delas já exploradas aqui neste blog. Basta, para isso, nos observarmos andando a pé, correndo em ladeiras, pedalando bicicletas, andando de patins, enfim. Olhando para a forma de estarmos no mundo, de fato, poderemos ser melhores em produzir robôs. Mas para isso é necessário acreditar que nosso sistema cognitivo não se limita ao cérebro e que, acoplados ao ambiente, formamos com ele sistemas dinâmicos. Sobre isso, leia mais neste meu post aqui.

*Não encontrei, no site do MIT, o robô Big Dog, mas o artigo de Wilson é de 2012, então ele pode ter dado lugar a outros projetos (realmente não sei). De qualquer forma, a tendência no mundo da robótica é bem representada pelo Big Dog e por outros que você vê no MIT e em outros laboratórios, como os robôs-insetos da Barbara Webb.

 

 

 

 

O cérebro que prevê (The Predictive Brain)

Segundo Anil K Seth, professor de neurociência cognitiva e computacional na Universidade de Sussex, o conceito do cérebro como uma “máquina que prevê” teria sido introduzido pelo matemático Hermann von Helmholtz no século 19 (veja neste artigo dele sobre o “hard problem” da consciência).

O conceito, que ocupa lugar de destaque nos estudos do filósofo da mente Andy Clark, baseia-se na imagem do cérebro humano como uma máquina com diversas camadas capaz de realizar previsões; sinais sensoriais são processados em múltiplos níveis neurais, que procuram predizer as informações sensoriais em fluxo. Essas previsões, inconscientes, nos preparam para lidar de forma rápida e eficiente com a corrente de sinais vindos do mundo.

Sendo assim, se o sinal sensorial que aparece é o esperado, nós vemos e ouvimos coisas que já começamos a nos preparar para ver e ouvir, ou revelamos comportamentos que já começamos a organizar. Mas, e se as coisas não saem como esperamos? Aí, acontece o chamado sinal de erro de previsão, que é calculado em cada área e nível de processamento neural, e revela que a previsão que fizemos estava errada. O cérebro é convidado a tentar novamente, armado com informações específicas que já incluem os novos erros. Dessa forma, o cérebro está permanentemente tentando adivinhar a forma e a evolução dos sinais sensoriais correntes, utilizando, para isso, o conhecimento armazenado do mundo.

Essa forma de o cérebro acoplar-se com o mundo pode nos ajudar em situações corriqueiras, como quando, em uma festa lotada, na qual está tocando música em volume alto, alguém chama nosso nome. Em meio a aqueles ruídos todos, conseguimos distiguir o chamado. Isso acontece, segundo a tese do predictive brain, porque o cérebro usa informação armazenada para realizar previsões sobre a ocorrência sensorial, e essas previsões ajudam a separar o sinal do barulho, revelando-nos o que realmente interessa no vasto mundo que habitamos.

Filosofia, ciência e o cérebro que prevê

Andy Clark é um filósofo que trabalha lado a lado com neurocientistas em busca de compreensão sobre como funcionamos, agimos, pensamos, aprendemos. Na University of Edinburgh, em que ele dá aulas, Clark realiza pesquisas junto a equipes dos laboratórios de inteligência artificial e robótica da universidade.

Clark está envolvido também no projeto X-SPECT, no qual, junto a outros especialistas, desenvolve pesquisas para aprofundar a teoria do predictive brain, por meio de experiências práticas. O grupo parece estar buscando ampla divulgação científica dos estudos, uma vez que criou página no Facebook, conta no Twitter e um site bem didático.

Clark é muito ativo e escreve sem parar. Em artigo recente, ele discute possíveis questões éticas advindas do predictive brain. De fato, dependendo do tipo de previsão que o cérebro fizer, com base em conhecimentos armazenados a partir de experiências anteriores, as consequências podem ser bastante complicadas. Ele usa como exemplo as estatísticas elevadas de homens negros baleados pela polícia que acreditava que eles estavam armados, mas não estavam (mais nesta matéria do NY Times, citada por ele).

O que acontece é que estamos inseridos num cenário cheio de informações distorcidas, que se transformam em sinais sensoriais errados para nossos cérebros e podem resultar, assim, em ações desmedidas. Soma-se a isso a quantidade de preconceitos que armazenamos em nossa sociedade, e que contribuem para formular nossas “previsões cerebrais”…

Alucinações?

De certa forma, estamos “alucinando” o tempo todo, diz Clark. Para Seth, a percepção é uma “alucinação controlada” (ele diz: “In this view, which is often called ‘predictive coding’ or ‘predictive processing’, perception is a controlled hallucination, in which the brain’s hypotheses are continually reined in by sensory signals arriving from the world and the body”).

Não à toa, questões éticas nos rondam o tempo todo e, à medida que avançamos tanto na compreensão de nossas próprias tecnologias corporais naturais como nas tecnologias inventadas, temos que ter ainda mais atenção a elas, além de continuar a luta para combater nossos próprios preconceitos.

Hard Problem da consciência

No artigo de Seth, da Universidade de Sussex, ele conecta o eterno hard problem da consciência à abordagem do predictive brain. Vale muito a leitura. Repetindo o link:

The Real Problem –  It looks like scientists and philosophers might have made consciousness far more mysterious than it needs to be

 

Imagem do post: Kaleb Nimz @ Unsplash

Amor… artificial?

Imagem: https://cdn2.hubspot.net/

O uso da internet para encontrar um amor não é recente. Todos conhecem – e muitos usam – os sites de relacionamentos, os apps como o Tinder e tantos outros.

Reportagem recente do Daily Mail traz a previsão de que quatro em cinco pessoas solteiras irão procurar por um amor na internet até 2050. Além disso, a reportagem destaca que deverá haver um aumento na idade média de quem buscará por parceiros pela Web – o que parece natural, devido ao fato de que estamos vivendo cada vez mais (temos que cuidar da humanidade para continuarmos assim, no entanto…!).

O curioso é que também até 2050, prevê o pesquisador britânico David Levy, autor de “Amor e Sexo com Robôs”, teremos a possibilidade de nos casar legalmente com robôs (!!!).

Levy acredita que relacionamentos de humanos com robôs serão uma realidade porque até lá a nossa relação com as máquinas já estará bastante natural…

Pode até ser.

Porém… há muitas questões aí, é claro.

Mas vou falar de apenas uma: quem pesquisa inteligência artificial e robótica e também está ligado às questões filosóficas provavelmente conhece o hard problem da filosofia (da humanidade?!): o da consciência.

A ciência ainda não conseguiu concluir como e por que temos consciência.

Consequentemente, também não há previsão para que robôs tenham consciência.

Então, por mais que uma máquina seja capaz de reproduzir o cérebro humano com perfeição, lhe faltará algo. Esse “algo”, que tem a ver com a nossa percepção, ainda envolve bastante mistério.

E aí, talvez caiba a pergunta: você namoraria alguém, melhor dizendo, um ser sem consciência?

Neste link do Guardian há uma boa reflexão sobre que tipo de relacionamento as sex-robots poderiam substituir…

Imagem: Michael Prewett @ Unsplash

Extended Mind: casos interessantes

Conheci recentemente mais casos interessantes de tecnologias que melhoram a vida das pessoas, atuando como extensões do corpo/da mente:

1. Óculos capazes de devolver a vida em cores para daltônicos

2. Próteses feitas especialmente para os seus donos

3. Os aparatos que este homem que sofreu um derrame, mostrado na série documental “Dark Net”, no Netflix, usa para se comunicar e para estar no mundo:

 

Nem tudo é cérebro no reino da cognição…

Matéria publicada no site Singularity Hub no final do mês passado aponta que vem sendo observada uma maior atenção à neurociência associada à educação, o que poderia levar o campo a inovar nas práticas educacionais. Em vez de continuar baseada em premissas tradicionais ou individuais sobre aprendizagem, a educação está começando a ser tratada como uma ciência, diz o artigo, que cita o termo neuroeducação (neuroeducation) como aquele que emerge dessa união. A neuroeducação, diz Raya Bidshahri, autora do texto, seria importante para aplicar o método científico ao desenho do currículo e às estratégias de ensino, em um esforço de “entender a aprendizagem com base em evidência”.

O artigo afirma que todas as habilidades humanas, entre elas a aprendizagem, são resultado da atividade cerebral. E se dedica a explicar as diversas influências dos estudos do cérebro para a evolução das análises relacionadas à aprendizagem. Afirma, ainda, que o campo da neuroeducação utiliza-se, além da neurociência, da psicologia e da ciência cognitiva para gerar informação para a educação e fundamentar estratégias de ensino.

Parece aí haver, de fato, grande inovação, ou a base para inovar. Afinal, a educação não tem nada a perder olhando para os avanços obtidos pela neurociência, muito pelo contrário, não vejo como haver separação aí. Mas, o que o artigo não menciona é o que vai além desse modo de ver a aprendizagem, que tem como foco o cérebro como se ele reinasse absoluto nesse processo. E não reina? Talvez não.

O cérebro, o corpo e o ambiente

Por mais que o cérebro, é claro, seja essencial para muitas habilidades humanas (mas quiçá menos essencial do que imaginamos, para muitas delas – o que já não é tão óbvio ou não tão bem aceito assim), existe um grupo (grande e crescente, vale dizer) de cientistas cognitivos e filósofos dedicados a analisar a relação entre as capacidades cognitivas, o cérebro, o corpo (como um todo) e o ambiente em que estamos inseridos. E, nessa equação, o cérebro deixa de ser, digamos, o ator de um monólogo, para se tornar um dos atores que “dialogam” para formar o nosso sistema cognitivo. Para os cientistas cognitivos e os chamados filósofos da mente, a mente é constituída pelo cérebro, o corpo e o ambiente. Dentre eles, Andy Clark e David Chalmers estão no grupo dos que vão mais longe: defendem que as tecnologias desenvolvidas por nós, humanos, também são constitutivas da mente, atuando como extensões dela. Trata-se da teoria da mente estendida.

O cérebro, o corpo, o ambiente e a educação

E de que maneira as teorias cognitivas que, por assim dizer, amplificam a mente, ajustando a lente para tirar o mérito absoluto do cérebro e colocar o foco também sobre o corpo e o ambiente, influenciam no desenvolvimento da educação? No mínimo, os pensadores que se dedicam a esses estudos nos levam a refletir sobre o fato de que também aprendemos com o corpo, ou fazendo uso das extensões dele – como nossos smartphones, por exemplo, que atuam como a nossa memória para muitas atividades e funções; e aprendemos também a partir de nosso relacionamento com o ambiente, que influencia outras funções cognitivas além da aprendizagem. Sem dúvida, tem muito o que ser analisado aí e isso é assunto para muito além de um post (no mínimo, uma dissertação, como é o meu caso!).

A neurociência é uma grande parceira de pesquisadores como Andy Clark, que constrói seus argumentos a partir do que é desenvolvido e descoberto pelos cientistas dedicados a estudar o cérebro. De forma alguma, Clark defende que o cérebro deve ser deixado de lado; não! O cérebro é essencial para a mente; acontece que o órgão não é o único que deve ser levado em consideração nesse processo. Nem tudo se resume a neurônios, podemos dizer assim! Por conta disso, esse filósofo da mente é um excelente pesquisador para quem deseja aprender mais sobre o funcionamento humano – e sobre inteligência artificial. Sim, sobre inteligência artificial, por que não? Em breve escrevo sobre isso aqui no blog. Vou também falar sobre o pesquisador Hubert Dreyfus, autor de um livro chamado “Skillful Coping”, que é uma obra altamente recomendada para quem está disposto(a) a desmontar aquilo no que acreditou até hoje, a respeito de como aprendemos e de como nos tornamos “experts” em alguma coisa…

Meu “incômodo” 

É por isso que, quando leio algo que fala em inovação na educação, hoje, sem mencionar esse aspecto da mente como sendo uma “parceria” entre o cérebro, o corpo e o ambiente, fico incomodada. E tenho procurado saber mais sobre esse universo que considero fascinante e que acredito poder revelar muito sobre a nossa maneira de estar no mundo, apreendê-lo e aprender.

Links

Por ora, recomendo a leitura desta ótima reportagem, publicada no site da Vice-Reitoria para Assuntos Acadêmicos da PUC-Rio, que traz falas do professor Ralph Bannell, meu orientador de mestrado, e da prof. Gilda Campos, com quem tive aulas este ano na PUC e que é a coordenadora da CCEAD da PUC.

Para quem nunca leu nada a respeito, que tal começar assistindo a um TED Talk com David Chalmers? Afinal, o smartphone é parte de nossa mente? Assista a este vídeo bem-humorado com Chalmers – que, ainda que pareça um roqueiro do Slayer, como alguém comentou no YouTube, na verdade é um dos autores da teoria da mente estendida, como mencionei.